Gombrich não morreu.

Só foi descoisificado.

A Coisa e a não-Coisa

Éramos todos felizes com A Última Ceia, de Da Vinci, ou com A Criação do Homem, de Michelangelo, ainda que inconformados com o tamanho do pipi do Adão. A gente até dá um desconto praquelas coisas que o El Greco fazia, mas só porque tem coisas dele nos livros de arte e temos que estudar de um jeito ou de outro.

Aí chega um cara e me vem com isso:

Max Bill. Harmonia das Colunas. Litografia em quatro matrizes. 1979.

Arte concreta, leitor; leitor, arte concreta.

Antes que me taquem pedras, vamos começar do começo. Isso aí é uma obra de arte (acredite!). Com calma. Assim. O autor dessa maravilha, um suíço que teve a infelicidade de ter seu trabalho espalhado na América do Sul, foi praticamente o responsável por trazer esse tipo de modernice pra cá. A arte concreta era uma nova maneira de encarar a arte e teve seus grupos e movimentos, mas antes disso, a idéia geral da coisa era “ei, vivemos num mundo diferente, por que é que vamos ficar venerando essas pinturas out do passado, cacete?”. Não era arte abstrata. A abstração é a ausência de figuração (a representação de coisas). A arte concreta era… não-abstrata, segundo o tio Van Doesburg (1883-1931), um dos padroeiros do negócio.

Péra, eu explico.

Figuração é a representação das coisas. Abstração é a ausência de figuração. A arte concreta, a não-abstração, representava a si própria. Pontos, linhas, formas e cores não significavam nada além de si próprios. Então quando alguém olha pra um quadrado azul num fundo branco e diz “que merda, é só um quadrado azul!”, BINGO, acabou de entender a ideia da coisa.

Stefani Joanne Angelina Germanotta. Não-pessoa com não-roupa. Assemblage (capas de botijão de gás sobre manequim orgânico). 2010.

Eu disse que era simples de entender.

Esse baile todo pra eu poder falar de não-coisas. Resolvi escrever sobre isso por causa do primeiro e inesperado comentário que recebi aqui, no post anterior.

Vejamos.

Quando a arte concreta chegou por aqui, é claaaaro que puseram a mão e o negócio começou a feder. Surgiram grupos concretistas no Rio e em São Paulo, e as briguinhas bairristas começaram. Um cara do Rio, então chamado Ferreira Gullar (1930-), liderou o bando dele e, depois de um tempo, resolveram acabar com a brincadeira, e fecharam o seu clubinho no que chamaram de Movimento Neoconcreto. Até manifesto eles tiveram, olha que bonitinho.

No comecinho do documento já tacavam na cara que a “tomada de posição neoconcreta” se fazia necessária “particularmente em face da arte concreta levada a uma perigosa exacerbação racionalista”. Oh, paulistas, como vocês eram maus.

Ferreira Gullar é poeta e crítico de arte, antes de tudo, e como todo bom crítico, devia viver no mundo da lua. Em uma de suas viagens na maionese, pensou nos não-objetos:

A expressão não-objeto não pretende designar um objeto negativo ou qualquer coisa que seja o oposto dos objetos materiais com propriedades exatamente contrárias desses objetos. O não-objeto não é um antiobjeto mas um objeto especial em que se pretende realizada a síntese de experiências sensoriais e mentais: um corpo transparente ao conhecimento fenomenológico, integralmente perceptível, que se dá à percepção sem deixar resto. Uma pura aparência.

Bem simples, né? Não.

Não-objetos são coisas gritantes, estranhas, feitas pra pegar a percepção do espectador, dar um nó nela e mandar nunca mais xingar a mãe de gorda. Não existe racionalidade aparente num não-objeto. Ele é todo percebido no inconsciente (daí a viagem de orégano e o “que se dá à percepção sem deixar resto”). Ele toca o espectador, provoca, incomoda, porque o lado racional do infeliz tenta encaixar aquilo numa concepção da realidade de alguma maneira e não consegue. Transcende a ideia de pintura (pois se refere especificamente a ela), transformando-a em alguma coisa, não na pintura de alguma coisa.

Resumindo, não-objetos poderiam se chamar objetos-Gaga: aquilo não deveria estar ali, não fui eu quem fez, não sei de onde veio e não sei onde é que vou enfiar sem que junte moscas e levante suspeitas.

Alguma não-dúvida?

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2 Respostas para “A Coisa e a não-Coisa

  1. Ëeħŧėřfæĉııж 12/04/2010 às 20:21

    também sou hype e faço capas de cd a partir do construtivismo russo uau!

  2. Kear 15/04/2010 às 13:55

    Seu não-post ficou não-legal, continue com o seu não-blog.

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