Gombrich não morreu.

Só foi descoisificado.

Arquivos Mensais: maio 2010

Canções da Maionese

Thomas Phillips. Retrato de William Blake. Óleo sobre tela, 92,1x72cm. 1807.

Eu fico caçando motivos pra escrever. Alguma coisa que me motive, senão o negócio não vai pra frente. Pensei em falar sobre algo atual, wow, legal, supermoderno etc, etc, mas não rolou. Tá certo que a exposição do barroco brasileiro lá é legal, eu pensei em falar sobre ela, mas nah. Por exemplo: o que me motivou a falar de MODELÂNDIA (vide o post anterior) foi a mais pura indignação.

Esse aqui foi motivado por música (tava ouvindo um álbum baseado no cara). Senhoras, senhores e bichinhos assexuados indecisos, falarei de William Blake. Eu não deveria, já que ele tá no meu TCC e isso foi traumático (brinks). Mas vamos lá.

O sr. Blake nasceu em 1757, em Londres (a que fica na Inglaterra, não as cinco dos EUA), e morreu lá também, em 1827. Como todo artista foda que nasceu antes do século XX, o coitado era praticamente  desconhecido em tudo quanto é lugar. O cara era extremamente religioso, na dele, vivia num mundinho fechado, tava cagando pra academia e achava que só o que ele fazia era o certo. Resultado: artista excepcional, mas considerado doido varrido por todos, exceto a mãe dele (espero). Tá, tinha alguns ali que achavam ele apenas um excêntrico inofensivo (arrã), e uns três, quatro, que realmente piravam junto, tipo “éee… sóoo… tu é o cara.” Mas eram poucos. Mesmo.

Esses poucos amigos do Blake eram que impediam-no de morrer de fome. Sério, ele vivia de fazer gravuras pros outros. No começo era foda. Se não vendesse, tava ferrado.

William Blake. O Ancião dos Dias. Água-forte com aquarela, 23,3x16,8cm. 1794.

Mas voltando à arte do cara: ele era pintor, poeta e tipógrafo. Além de superintrovertido. Ele desenhava e pintava de cabeça, fazendo as coisas como bem entendia, pouco se lixando se tava natural ou não. Era a visão dele que importava. Pintava as figuras pensando no significado delas, não se a sombra da cutícula do dedo de Deus tava certa (ok, ele tinha erros de anatomia bem feios, mesmo). Nesse aspecto ele parecia com os pintores medievais, que também faziam tudo como queriam, estivesse correto ou não.

Por que ele é tão importante assim? Porque foi o primeiro a trair a família Restart desde o Renascimento. O primeiro a dizer “ei, gente, péra, por que é que tem que fazer tudo assim? Faz cada um do seu jeito e fica todo mundo de boa!”. Óbvio que era esse um dos motivos pelos quais os artistas da época o achavam bizarro. Demorou praticamente um século pra ele ser reconhecido como uma das mais importantes pessoinhas da arte inglesa.

De toda a obra dele, duas foram as coisas que me obrigaram a escrever. Dois livros, escritos e ilustrados por ele. Canções da Inocência, de 1789, e Canções da Experiência, de 1793. Depois da publicação do segundo volume, os dois foram publicados num livro só, chamado Canções da Inocência e da Experiência Mostrando os Dois Estados Contrários da Alma Humana. Como num manuscrito da Idade Média, o Blake compôs os poemas, ilustrou cada um deles e os fundiu às ilustrações, as quais gravou e imprimiu.

Até a morte de Blake, foram vendidas vinte cópias de Canções da Experiência. Hoje em dia essa coisa cai nas provas do fim do ensino médio na Inglaterra. Não é demais?

A Imagem Divina, de Canções da Inocência.

Esses dois livros foram de suma importância para a história da ilustração. Blake era um artista do período romântico, sua arte era extremamente particular e ele ilustrava os próprios poemas que compunha. Poesia é um dos gêneros literários mais difíceis de serem ilustrados, dada a sua comum sucessão de metáforas, alegorias e demais frescuras. Já é uma abstração danada quando escrito, então tentar criar uma concepção visual pra coisa só pode, na maioria das vezes, dar em merda. Rui de Oliveira, ilustrador brasileiro, fala isso de um jeito mais bonitinho:

“Existem momentos, não apenas na poesia, mas na prosa também, em que a literatura alcança tal nível de beleza e abstração que qualquer imagem, por mais fantasiosa que seja, tornaria vulgar esse instante literário. Nem tudo pode ser ilustrado. Nem tudo possui um corpo físico.”

OLIVEIRA, I. (org). O que é qualidade em literatura infantil e juvenil – com a palavra o ilustrador. São Paulo: DCL, 2005.

Não havia livros parecidos com esses dois do Blake, e essa é a graça da coisa. Ele inovou a maneira como eram ilustrados, com imagens mescladas ao texto, não em páginas separadas com uma legendinha tosca. Óbvio que não foram as únicas ilustrações que ele fez na vida – em boa parte dela, passou ilustrando textos de outros autores. Ainda assim, suas imagens não eram simplesmente interpretações literais do que estava acontecendo nas cenas representadas: eram sua visão pessoal da obra, influenciada por todo o seu misticismo característico.

William Blake. Ilustração para a Divina Comédia, Inferno, Canto V.

Blake morreu enquanto trabalhava nas ilustrações da Divina Comédia, de Dante. Hoje em dia, ninguém sabe onde está exatamente o seu túmulo, apesar de existir uma lápide próxima do local onde ele deve ter sido enterrado, junto da esposa. A Igreja Gnóstica Católica reconhece Blake como um santo.

Sei não, eu também.

Uma tendência para todos dominar

 

~Eu estou nua e não-euclidiana por trás dessa montagem tosca~

Esse texto aqui vai pra outro campo, fora das artes visuais. Literatura. Tá. Não literalmente (ó o trocadalho), mas vai. Só pra mostrar como somos abrangentes e polivalentes (oi?).

Uma das minhas ambições é publicar um livro. Mas primeiro eu preciso escrevê-lo, assim que a minha preguiça e o meu dom de procrastinação avançada me permitirem tal coisa.

Outra das minhas vontades é a de parar de frescura e começar a dirigir, já que eu gastei um belo dinheiro pra ter uma habilitação. Se tem mulheres e analfabetos que conseguem dirigir, porque eu ainda hesito ao pegar um carro?

Pensando nisso e na notícia abaixo, está decidido: serei um escritor renomado.

Yup. Tyra Banks vai publicar uma trilogia de fantasia sobre modelos. Salve-se quem puder.

Depois de Christopher Paolini e o superoriginal Eragon, depois de Stephenie Meyer e sua profunda saga dramática e purpurinada sobre vampiros-emos-cintilantes-genéricos, é hora da MODELÂNDIA. Alguém me tire desse planeta.

Eu não tenho formação para discutir cânones de literatura ou coisa do tipo. Mas eu gosto de ler e de escrever. E de falar mal desse tipo de coisa aí (sim, eu também tenho defeitos). Mas vamos às palavras da própria ex-modelo semicantora empresária quase-ex-apresentadora e futura PAULO COELHO:

I’m so EXCITED!! I said I was going to do it, and here it is! It’s for all the girls and guys who want a lot more FANTASY in their lives… and some fierceness and magic, romance and mystery, crazy and wild adventures, and yeah, some danger too. It’s my novel called Modelland (pronounced “Model Land”) that takes you to a fantastical place you’ve never seen, or heard about, or read about before… Where dreams come true and life can change in the blink of a smoky eye. ;)

Em uma tradução improvisada (não fiel, mas mantendo o espírito original):

EU FUI FORÇADA!! Eu não queria fazer isso, mas tá aí! A mídia pediu, eu fui obrigada: eles querem pessoas que se FANTASIEM o dia todo… o travestismo é tendência, é forte e mágico, atrai romances e mistério, drogas e aventuras e, óbvio, DSTs também. Eu não resisti e sei que ia ganhar dinheiro com a Modelândia (tipo “Terra das Modelos”), uma história que vai acabar te levando para a cadeia, onde nunca mais vai ver, ou ouvir sua família… Onde os sonhos terminam e a vida acaba com o olho do ** na mão. ;)

 

Eu não queria.

Tá, falando sério. Ela vai escrever sobre um mundo de faz-de-conta (arco-íris, por favor?) para o qual uma menina e seus amigues são transportados magicamente (purpurina, por favor?). Isso em três livros. Teremos tipo uma Nárnia onde Aslam é o Alexander McQueen (quedescanseempaz).

Segundo TAIRA, a história tá na cabeça dela há centenas de anos. O bom de ser milionária é que ela pôde fazer todo esse drama de “aimeudeusvoupublicar” enquanto a editora do tal Modelândia é… dela. Isso, Tyra Banks abriu uma editora. “Livros Bancáveis”, seria a tradução do nome da mesma, mas só na minha cabeça, então releve.

Eu gostaria de ter esperanças dela escrever algo realmente relevante e interessante, e que tire a ideia da frescura do ~mundo da moda~. E desglamurizasse (palavrão) a coisa, pras pessoas entenderem o porquê das roubas bizarras nas passarelas e das modelos estilo pau-de-virar-tripa. Mas não sei. Ainda me parece clichê genérico nos moldes de Harry Potter/Nárnia: três protagonistas, um mundo feliz e mágico contrastando com o mundo real e pobre sem fantasia, etc, etc.

Em nota não relacionada, o cantor Falcão diz ter recebido uma proposta de estrelar uma trilogia de filmes holywoodiana como um vilão “cafona e afetado” cuja frase mais falada é “isso é tão 2008!

Será que isso significa que o vilão de Modelland vai ser alguém bem coleção passada?

 

Significa.

 

God of Warhol

Motivado pela tirinha (supracolada) do Saturday Morning Breakfast Cereal (e por cutucões de amigos falando da mesma), passei uns dias pensando em como escrever sobre videogames e arte. Pois bem. Nesse mundo de arte contemporânea maravilhoso, encantador e cheio de unicórnios, arcos-íris, latinhas de cocô e não-coisas, temos o eterno arranca-rabo OH DEUSES O QUE É ARTE?

Não vou definir nada aqui. Como bom lorde inglês (que não sou), vou rodear o assunto pelas bordas e deixar que você se vire pra tirar sua própria conclusão. Depois vou tomar chá.

Videogames são legais. Eu adoro jogar, ainda que meu repertório GAMÍSTICO seja relativamente pobre. Tem os jogos-farofa-blockbuster da série Final Fantasy, os farofa-sanguinolentos como God of War e os farofa-doentios comoKatamari Damacy. Não, “farofa” não é uma categoria de jogos (espero). Só digo isso porque são jogos pra se divertir, ir lá, matar monstros, andar pelo cenário, quebrar coisas, amontoar coisas, ganhar pontos, decapitar a Medusa, reclamar da tradução ruim ou do roteiro furado e sem noção (Devil May Cry, estou olhando pra você).

 

Katamari Damacy: sua mãe é tão gorda que tem um campo gravitacional só dela.

Vamos pegar God of War como exemplo, aqui. Eu gosto dele. É legal. Até meu pai, que mal sabe onde ficam os botões do controle, adora, e começou a jogar videogame graças à explosão de sangue e vísceras e pedaços e sangue e vísceras que o Kratos deixa pelo caminho. Ele joga por jogar, não faz os combos direito, se perde quando vai apertar os botões, mas é raro eu ver ele se divertir tanto. E ele se diverte. Eu comecei a jogar a série – pasme, sim, é a mais pura nerdice – por causa da mitologia grega que existe no pano de fundo.

Se bem que tudo fica no pano de fundo, que fica sujo de tanto sangue que tem no jogo. Já nas primeiras cenas de God of War 1, eu (continue pasmo, por favor) ficava analisando a arquitetura dos lugares e vendo como tudo aquilo era errado e anacrônico e faria minha professora de História da Arte ter um colapso nervoso no meio de fustes e frisos. Mas ei, é um jogo. Acasale-se a história! (gostou da substituição da palavra com F? Eu sim!).

God of War é lindo. As cenas de ação parecem saídas de filmes (mas não são cinema) e as atuações dos personagens são dignas de uma novela das 8 (do SBT, e olhe lá). Em termos de arte, a fotografia e a trilha sonora são os pontos altos, especialmente esta última, na minha opinião. Corais cantando em grego, música instrumental e o caramba, é uma coisa que não se vê em muitos lugares, e há uns anos atrás esse tipo de detalhe era completamente secundário em videogames. Hoje em dia, existem até festivais só de trilhas sonoras de jogos (e eu aceito convites pro VGL, obrigado).

Caminho das Grécias, com Kratos Dolabella (-q).

Estou falando sem chegar a lugar algum. Pois bem, vou fazer uma analogia aqui pra falar de outro jogo. Com HQs. Sabe aquelas histórias em quadrinho de super-herois, da Marvel e da DC? Então, são histórias que pertencem às editoras, que contratam os desenhistas, os roteiristas e o povo todo que vai trabalhar em cada edição. Pacotes fechados, carteira assinada, cada um na sua e beleza. Agora pega, por exemplo, Watchmen ou Sandman (sim, meu repertório de HQs também é pequeno). Essas últimas são histórias dos autores. Tem todo um time de trabalho, assim como as outras HQs, mas quem dita os rumos não é o editor-chefe, é primeiramente o autor, o cara que escreve e pensa em tudo do começo ao fim.

Não vou ser ingênuo e dizer que não tem pitacos do editor aqui e ali, porque é um trabalho, afinal. Mas acho que deu pra entender. E sim, eu estou falando da minha opinião aqui: produções autorais, por seu caráter independente, são sim, “mais arte” que produções unicamente editoriais, feitas em larga escala, etc. Me crucifiquem, eu sou mau (mentira) e descendente de alemães (verdade, mas os que fugiram da guerra, não os psicopatas xenófobos).

Assim como histórias em quadrinhos, existem poucos videogames autorais. Tanto que os únicos que me vêm à mente agora são IcoShadow of the Colossus, de Playstation 2. Muita gente não conhece, muitos dos que conhecem acham um pé no saco, mas quem aproveita o que esses jogos têm pra oferecer sabe que são experiências únicas. Tambores para a Frase de Efeito: assim como a Arte.

Não vou falar com detalhes dos dois jogos aqui porque o texto já está longo demais. Mas resumindo: em Ico, o jogador controla um menino, que nasceu com chifres e, graças à essa maldição, foi trancado em uma fortaleza pelos habitantes de uma vila. Na fortaleza, o menino, Ico, encontra-se com uma garota estranha chamada Yorda, que tem o poder de abrir portas mágicas, intransponíveis de outra maneira. A jogada: Yorda não atravessa a maioria dos lugares, e o jogador tem que ficar caçando maneiras dela poder atravessar, enquanto Ico se esgueira por tudo que é buraco. Ela é distraída, fica perdida no cenário, e é preciso chamá-la toda hora, ficar segurando pela mão, etc. Só tem os dois, no jogo todo. E a fortaleza. E uns monstrinhos que vivem querendo sequestrar a menina. Os cenários são gigantescos e não tem música. Nenhuma. Só se ouve o barulho do vento, do começo ao fim.

Que chifres grandes você tem!

O jogo tem um poder de imersão incrível. Ora ou outra eu me via xingando a Yorda, ou reclamando dela (“Vaca! Corre, sua derpa! Fiadamãe!”, etc). Porém, em um pedaço da história, Ico fica sem ela.

É aterrorizante. É horrível. Depois de horas escoltando a menina por aquele lugar gigante, a perspectiva de não saber o que está se passando com ela é assustadora. Em nenhum jogo eu senti tal nível de apego aos personagens. E olhe bem o que eu falei aqui: “eu senti”. Pode não acontecer com você.

Ico é um jogo original. Simples, sem música, longo e imersivo. Shadow of the Colossus é assim, também, e é do mesmo “autor”, Fumito Ueda (ainda que SoTC tenha algumas músicas, o que predomina é o silêncio). O que diferencia os dois de GoW? O fato de serem autorais. Não existem jogos sequer parecidos com as propostas que esses dois oferecem. God of War é legal, cheio de ação, músicas maravilhosas, um orçamento que poderia (mesmo) comprar uma cidade pequena (Areiópolis tá meio abandonada, alguém se interessa?), mas não tem absolutamente nada de novo. Só são muitos elementos bacanas, já vistos em outros lugares, que se juntaram ali. Isso faz dele um jogo ruim? De maneira alguma.

Só tem 16 desses no jogo. E você tem que acabar com eles. E com a mãe deles.

Só que, e isso que vou dizer também se refere à eterna guerra de consoles, hoje em dia se vê poucos jogos novos. Não que poucos jogos sejam lançados, mas poucas maneiras novas de jogar são criadas. O mesmíssimo acontece com a arte de hoje. E a mesma resistência por parte dos consumidores/espectadores acontece. Ainda temos telas, ainda temos esculturas, mas mostre uma videoarte ou uma instalação com várias mídias interativas para um reles mortal (oh!) e peça pra ele te explicar se aquilo é arte.

Aí vem a Nintendo com um console que faz os jogadores terem que ficar de pé (blasfêmia!), mover o corpo todo (heresia!) e não apresenta gráficos revolucionários de última geração (queimem o Miyamoto, ele transforma as pessoas em salamandras!). Algumas pessoas adoram e acham que é a vinda do messias, enquanto grande parte vira a cara e despreza, preferindo as mesmas coisas de sempre, apenas requentadas.

Gente, eu fiz relação de videogame com arte, tô ficando bom nisso.

Abstração e Obstrução ou “Como Fazer o Cérebro Aceitar o Que Não Faz Sentido?”

Pollock, J. Full Fathom Five, 1947. Oil on canvas with nails, tacks, buttons, coins, cigarettes, and lasers 129 x 76.5 cm.

Uma das missões colocadas para minha pessoa como professora de Arte (ou Artes? Ou Educação Artística? Ou não) é salientar períodos de produção como Arte Moderna, Arte Contemporânea e situar certos movimentos artísticos como o Cubismo, Expressionismo e os ismos todos. Parece uma tarefa fácil uma vez que metade dos alunos decora e a outra cola… só parece. 

Saindo um pouco da sala de aula, a maioria da população comum ao ser questionada sobre o que é Arte Abstrata vai sacudir os ombros e dizer num tom de voz que sugere que ela não tem nada a ver com isso:

— São aqueles quadros que não tem nada.

Ou ainda

— É aquelas coisas sem sentido que não quer dizer nada.

E tem mais!

— É aquilo que o macaco da novela faz melhor que a gente.

“Mas afinal” queremos saber “que diabos é Arte Abstrata?”. Como boa adepta da terapia de choque eu respondo para qualquer um; aluno ou transeunte, amigo, inimigo, protestante ou seguidor da KKK, com Pollock.

Isso!Isso, fofo! O ápice do Expressionismo Abstrato, action painting, drip painting ou whatever como você queira chamar aquele torvelinho pictórico que esse cidadão estadounidense fazia cada vez que se via diante de uma superfície em branco… aquele ápice está ali por minha conta e risco.

Jackson Pollock nasceu alguns anos antes da primeira guerra e morreu poucos anos depois da segunda, alcoólatra, fumante, psicologicamente instável, voilá! Só podia ser artista… Passou por uma fase figurativa influenciada por teosofias, arquétipos da psique e muito de tudo um pouco nesse sentido até culminar nas tais expressionadas obras abstratas durante quase uma década antes do final frenético de sua vida artística enfiando o carro numa árvore enquanto dirigia bêbado (não tentem isso em casa, crianças).

Obviamente existem coisas que nenhum dos lados aceita...

Estou falando de Pollock porque não vejo outra maneira de falar sobre coisas que nosso cérebro não aceita, ou pelo menos o lado esquerdo dele.

Saiba mais:

Você tem dois “cérebros”: um esquerdo e um direito. Os estudiosos do cérebro atualmente sabem que o cérebro esquerdo é o verbal e racional; ele pensa em série e reduz o raciocínio a números, letras e palavras. Seu cérebro direito é não-verbal e intuitivo; ele pensa em padrões, imagens compostas de “coisas inteiras”, e não compreende reduções, sejam números, letras ou palavras.

BERGLAND, R. The Fabric of Mind. Nova York: Viking Penguin, Inc., 1985, p.1

Arte Abstrata enche o saco porque mexe com o lado esquerdo, ele ‘tá lá na dele, nomeando cousas e relacionando nomes com fatos, alhos com bugalhos e você joga uma coisa totalmente desconexa na frente dele e quer dar atenção a ela, o lado direito tem faniquitos e diz:

— Cara, olha só essas formas e cores, volumes e volteios, olha que massa! Isso é uma anfetamina visual muito heavy!

Ao que o esquerdo responde:

— Velho, sai dessa vida, não tem nada de mais aí, não dá pra distinguir nada nesse lixo! Não tem rostos, não tem pessoas não tem… espera… acho que ali… não, não, foi só impressão minha, vem, vamos pra seção da Renascença, eu quero ver a Mona Lisa.

Acontece que nosso lado direito precisa de tanta atenção quanto o esquerdo, na verdade, nosso cérebro como um todo, muitos de nós tem se esquecido que nossa adaptação evolutiva é… Pensar. Usar a massa cinzenta. A pintura abstrata, assim como o concretismo e seus quadrados que são somente quadrados, quer dizer exatamente o que ela é: uma série de linhas, borrões, manchas e massas pictóricas. Artistas que se aproveitam obscenamente (hmm..) das diferentes texturas dos mais variados tipos de tintas pelo prazer de.

Equilíbrios de cores e formas, riscas e pingos que formam padrões coerentes por si só, sem nomeação real.

Abstracionismo está lá para ser abstraído (Duh, no shit, Sherlock!), dê um momento para o seu cérebro funcionar de outras maneiras que não sejam tão óbvias.

Aliás é divertidíssimo aos professores wannabe, peçam a um aluno na faixa dos 10-15 anos para pintar um sol de verde ou uma floresta de roxo, mesmo que você diga que vai dar zero se eles fizerem outra coisa, alguns simplesmente não aceitam e se incomodam com a idéia, entregando um tranquilizante sol amarelo sobre uma floresta religiosamente verde.

Mas porque raios devo eu deixar meu cérebro sair por aí cutucando coisas que não fazem sentido? Eu não tenho tempo! Trabalho, estudo, tenho 15 filhos pra criar!

Amiga, isso é uma desculpa péssima, pra começo de conversa se você considerar que o cérebro funciona 24 per day/7 a week, em algum momento ele acaba fazendo isso, mas pouca gente percebe.

É quando você está dando aquele barro (com todo o respeito às miladys que não fazem isso, tipo a Xuxa ou a Megan Fox mas eu duvido que elas leiam isso) ou esperando o busão e olha pro chão ou para o azulejo colorido com aquele efeito tenso de blur (porque azulejo de florzinha é tão anos 80), então aos poucos você vê um rosto tomando forma, mas logo ele não está mais lá, e você pára com a idéia porque isso é coisa de gente louca e crianças hiperativas, certo?

PÉÉÉÉ!

Errado.

Isso são seus cérebros brigando pelo controle, fomente esta luta, faça apostas, veja quem ganha. O cérebro esquerdo acaba cedendo, procurando por novas formas para nomear enquanto o direito se deleita com a malha coesa de tinta apenas por ela ser coesa.

No fim das contas Abstração acaba sendo um Nada que incomoda exatamente por ser intrigante de se olhar, acaba sendo Coisas Sem Sentido que nos estimulam visualmente e se bastam nisso, e se o macaco da novela Faz Melhor talvez seja porque ele usa melhor o cérebro do que nós…