Gombrich não morreu.

Só foi descoisificado.

Abstração e Obstrução ou “Como Fazer o Cérebro Aceitar o Que Não Faz Sentido?”

Pollock, J. Full Fathom Five, 1947. Oil on canvas with nails, tacks, buttons, coins, cigarettes, and lasers 129 x 76.5 cm.

Uma das missões colocadas para minha pessoa como professora de Arte (ou Artes? Ou Educação Artística? Ou não) é salientar períodos de produção como Arte Moderna, Arte Contemporânea e situar certos movimentos artísticos como o Cubismo, Expressionismo e os ismos todos. Parece uma tarefa fácil uma vez que metade dos alunos decora e a outra cola… só parece. 

Saindo um pouco da sala de aula, a maioria da população comum ao ser questionada sobre o que é Arte Abstrata vai sacudir os ombros e dizer num tom de voz que sugere que ela não tem nada a ver com isso:

— São aqueles quadros que não tem nada.

Ou ainda

— É aquelas coisas sem sentido que não quer dizer nada.

E tem mais!

— É aquilo que o macaco da novela faz melhor que a gente.

“Mas afinal” queremos saber “que diabos é Arte Abstrata?”. Como boa adepta da terapia de choque eu respondo para qualquer um; aluno ou transeunte, amigo, inimigo, protestante ou seguidor da KKK, com Pollock.

Isso!Isso, fofo! O ápice do Expressionismo Abstrato, action painting, drip painting ou whatever como você queira chamar aquele torvelinho pictórico que esse cidadão estadounidense fazia cada vez que se via diante de uma superfície em branco… aquele ápice está ali por minha conta e risco.

Jackson Pollock nasceu alguns anos antes da primeira guerra e morreu poucos anos depois da segunda, alcoólatra, fumante, psicologicamente instável, voilá! Só podia ser artista… Passou por uma fase figurativa influenciada por teosofias, arquétipos da psique e muito de tudo um pouco nesse sentido até culminar nas tais expressionadas obras abstratas durante quase uma década antes do final frenético de sua vida artística enfiando o carro numa árvore enquanto dirigia bêbado (não tentem isso em casa, crianças).

Obviamente existem coisas que nenhum dos lados aceita...

Estou falando de Pollock porque não vejo outra maneira de falar sobre coisas que nosso cérebro não aceita, ou pelo menos o lado esquerdo dele.

Saiba mais:

Você tem dois “cérebros”: um esquerdo e um direito. Os estudiosos do cérebro atualmente sabem que o cérebro esquerdo é o verbal e racional; ele pensa em série e reduz o raciocínio a números, letras e palavras. Seu cérebro direito é não-verbal e intuitivo; ele pensa em padrões, imagens compostas de “coisas inteiras”, e não compreende reduções, sejam números, letras ou palavras.

BERGLAND, R. The Fabric of Mind. Nova York: Viking Penguin, Inc., 1985, p.1

Arte Abstrata enche o saco porque mexe com o lado esquerdo, ele ‘tá lá na dele, nomeando cousas e relacionando nomes com fatos, alhos com bugalhos e você joga uma coisa totalmente desconexa na frente dele e quer dar atenção a ela, o lado direito tem faniquitos e diz:

— Cara, olha só essas formas e cores, volumes e volteios, olha que massa! Isso é uma anfetamina visual muito heavy!

Ao que o esquerdo responde:

— Velho, sai dessa vida, não tem nada de mais aí, não dá pra distinguir nada nesse lixo! Não tem rostos, não tem pessoas não tem… espera… acho que ali… não, não, foi só impressão minha, vem, vamos pra seção da Renascença, eu quero ver a Mona Lisa.

Acontece que nosso lado direito precisa de tanta atenção quanto o esquerdo, na verdade, nosso cérebro como um todo, muitos de nós tem se esquecido que nossa adaptação evolutiva é… Pensar. Usar a massa cinzenta. A pintura abstrata, assim como o concretismo e seus quadrados que são somente quadrados, quer dizer exatamente o que ela é: uma série de linhas, borrões, manchas e massas pictóricas. Artistas que se aproveitam obscenamente (hmm..) das diferentes texturas dos mais variados tipos de tintas pelo prazer de.

Equilíbrios de cores e formas, riscas e pingos que formam padrões coerentes por si só, sem nomeação real.

Abstracionismo está lá para ser abstraído (Duh, no shit, Sherlock!), dê um momento para o seu cérebro funcionar de outras maneiras que não sejam tão óbvias.

Aliás é divertidíssimo aos professores wannabe, peçam a um aluno na faixa dos 10-15 anos para pintar um sol de verde ou uma floresta de roxo, mesmo que você diga que vai dar zero se eles fizerem outra coisa, alguns simplesmente não aceitam e se incomodam com a idéia, entregando um tranquilizante sol amarelo sobre uma floresta religiosamente verde.

Mas porque raios devo eu deixar meu cérebro sair por aí cutucando coisas que não fazem sentido? Eu não tenho tempo! Trabalho, estudo, tenho 15 filhos pra criar!

Amiga, isso é uma desculpa péssima, pra começo de conversa se você considerar que o cérebro funciona 24 per day/7 a week, em algum momento ele acaba fazendo isso, mas pouca gente percebe.

É quando você está dando aquele barro (com todo o respeito às miladys que não fazem isso, tipo a Xuxa ou a Megan Fox mas eu duvido que elas leiam isso) ou esperando o busão e olha pro chão ou para o azulejo colorido com aquele efeito tenso de blur (porque azulejo de florzinha é tão anos 80), então aos poucos você vê um rosto tomando forma, mas logo ele não está mais lá, e você pára com a idéia porque isso é coisa de gente louca e crianças hiperativas, certo?

PÉÉÉÉ!

Errado.

Isso são seus cérebros brigando pelo controle, fomente esta luta, faça apostas, veja quem ganha. O cérebro esquerdo acaba cedendo, procurando por novas formas para nomear enquanto o direito se deleita com a malha coesa de tinta apenas por ela ser coesa.

No fim das contas Abstração acaba sendo um Nada que incomoda exatamente por ser intrigante de se olhar, acaba sendo Coisas Sem Sentido que nos estimulam visualmente e se bastam nisso, e se o macaco da novela Faz Melhor talvez seja porque ele usa melhor o cérebro do que nós…

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3 Respostas para “Abstração e Obstrução ou “Como Fazer o Cérebro Aceitar o Que Não Faz Sentido?”

  1. Geroto 04/05/2010 às 14:12

    Cara imaginar um sol verde e uma floresta roxa realmente me incomodou!!!

  2. Alfonso 04/05/2010 às 15:00

    "Jackson Pollock nasceu alguns anos antes da primeira guerra e morreu poucos anos depois da segunda, alcoólatra, fumante, psicologicamente instável, voilá! Só podia ser artista… "Olhando por esta lógica, não era para eu ser o artista e tu e o Bruno não serem?- Arghão Gatão

  3. Lavos 04/05/2010 às 22:59

    SCCCREEEEEEEEEEEECHHHHHH

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