Gombrich não morreu.

Só foi descoisificado.

Tron, Romero Britto e Hollywood

Aí que sexta-feira Romário (O Que Ainda Não Escreveu Aqui) e eu fomos ver Tron: Legacy.

AQUELE é o Tron.

Dois dias antes, resolvi assistir ao original, de 1982. Ouvi rumores de que, na época em que foi lançado, o filme só não ganhou mais prêmios porque a quantidade de efeitos digitais era tanta que muitos  consideravam isso trapaça. Sim, trapaça. Afinal, não eram coisas de verdade que estavam na tela. Eram truques de computador.

(É só lembrar que o fantasma de Ghost era um avanço incrível, e olha que foi feito oito anos depois.)

Enfim. Vi o original e achei incrível. Óbvio que em termo de computação gráfica não é nada se comparado ao que temos hoje, mas era algo sem precedentes pra década de 1980. O enredo do filme é bacana: Kevin Flynn, um hacker, tenta invadir o sistema de uma empresa, a ENCOM, que pertenceria a ele caso seus projetos não tivessem sido roubados pelo atual manda-chuva do lugar. Mil coisas acontecem, Flynn acaba sendo sugado de corpo e alma para dentro do sistema e interage com os programas, naquele mundo parecendo pessoas muito bizarras e malvestidas.

Os programas têm uma espécie de religião, e acreditam em seres maravilhosos chamados de ~usuários~, veja só. Os Usuários são as pessoas que os criaram e se comunicam com eles como se fossem guias espirituais. Há um programa que ajuda Flynn em sua jornada, chamado Tron. Ele foi criado para ser independente do sistema mestre, e luta pela liberdade. Etc, enredo, enredo, vilão, etc. Fim. Como um bom filme hollywoodiano pré-anos 2000, é contido, conta uma história simples, acaba e pronto. Legal. A vida continua.

O mesmo não acontece com Tron: Legacy.

O legado de quem, mesmo?

Romário e eu fomos assistir sem expectativa alguma. Eu mesmo só tinha ido pela trilha sonora — e olha que eu nem conhecia Daft Punk; sim, me crucifique — e pelo visual. O mesmo pra ele. Acabou que o filme superou em muito as nossas expectativas: era lindo em todos os aspectos visuais e sonoros e, descontando os eventuais buracos na história, ficamos animados e surpresos ao assistir. Pelo menos até os últimos quinze minutos, que devem ter sido deixados pro estagiário de office-boy da Disney escrever.

Acontece o seguinte: em Legacy, Kevin Flynn está desaparecido há 20 anos. Seu filho, Sam Flynn, agora dono da ENCOM, não faz ideia de onde o velho foi parar, até que ele próprio acaba entrando na Grade — agora o mundo-sistema tem nome — e descobre que um programa chamado CLU, criado à imagem e semelhança de seu pai, controla tudo e é vilão e isso.

Spoilers aqui. Depois de mil batalhas e efeitos especiais que fariam o Narrador da Sessão da Tarde enfartar ao descrevê-los, Sam encontra o pai e uma programa chamada Quorra; os usuários  têm que sair da Grade para desativar CLU por fora, por meio de um portal que, segundo o Flynn mais velho, é impossível de se alcançar.

Exceto que não. Tem um trem-coisa que vai em linha reta até o lugar (?). É desse tipo de furo de roteiro que encontra-se lá. Fora que em Legacy os programas dançam, bebem, comem e até jogam Go. Eles não são mais programas, como… era pra ser.

Ah, e o Tron mal  aparece. Quer dizer, o filme tem o nome dele, mas ele fica em segundo, não, em terceiro plano. Aparentemente foi reprogramado por CLU e agora virou um subvilão de poucas palavras (o pior tipo). É por culpa dele que o final do filme começa a descambar. Tron morre, mas não morre (deixando uma ponta solta); Flynn-pai e CLU morrem, mas não morrem (outra ponta solta). Sam consegue escapar para o mundo real.

Junto com Quorra. Que é um programa. Em vez dela sair do computador como um arquivo .exe num pendrive, não, é uma mulher de carne e osso passeando na garupa da moto do protagonista (nessa parte o Romário estava morrendo).

Resumindo, o filme é lindo. Visual e sonoramente impecável. Claro que tem os furos de roteiro já esperados da média dos filmes farofa de Hollywood, mas é lindo. Nós dois saímos xingando muito no Twitter (mentira), tamanha foi a decepção com o final. O que me irritou profundamente, na conclusão,  foi a quantidade absurda de pontas soltas propositais que o longa deixou. Acabou-se a era de se criar histórias bacanas pra passar o tempo. Agora cria-se franquias imensas, coisas que serão legais e obrigatoriamente terão continuações.

O que nos leva ao segundo assunto que pensei pra esse post. Franquias e continuações. Mais ou menos.

Pouco antes de Romário e eu entrarmos no cinema, vimos umas estampas num painel, lá no shopping, cheias de coisas do Romero Britto. Imediatamente reagimos com o olhar Ugh, Romero Britto (é engraçado, peça pra ver um dia) e desdenhamos da imagem quando passamos. Ontem havia projeções de brittonices no cenário do Domingão do Faustão — como eu me sinto mal por falar disso aqui no GNM —, o que me fez decidir emendar esse assunto nesse post.

Romero Britto. Atlantic Family Tree. Acrílico sobre tela, 203 x 229 cm.

O cinema das massas tem as franquias planejadas supermilhonárias. Romero Britto tem a receita do sucesso. Pena que só funciona pra ele: faz anos que o cara faz a mesmíssima coisa e todo mundo adora. Não vou dizer que é feio, porque não é. É legal, colorido, bacana, mas não muda. Fora que está estigmatizado, de tão divulgado. Não consigo olhar pra uma pintura dele e não pensar numa caixa de Omo ou em alguma instituição de crianças com câncer.

(Você pode ver mais no site oficial dele).

Eu sei que tem muita gente que nem o considera um artista, dada a repetição e a fórmula aparentemente pronta das pinturas — linhas grossas, cores puras, estampas mil, estilização extrema — agora se ele é mesmo ou não, é outra história. O fato é que Britto foi viver nos EUA e fez a vida por lá. Seu estilo é visto com bons olhos por muitas marcas que o chamam pra produzir imagens promocionais para cartões, camisetas, cartazes, ou seja lá que tipo de instalação ~artística~ tenham em mente.

A arte de Romero Britto é hollywoodiana. Amamos, é linda, todo mundo entende e acha legal, mas é basicamente a mesma coisa há décadas. Mudar faria ele perder público? Continua sendo arte, mesmo que seja feita pra fins comerciais de entretenimento de massa?

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4 Respostas para “Tron, Romero Britto e Hollywood

  1. Madrouge 27/12/2010 às 22:03

    O que eu acho mais bacana é que aqui em São Caetano temos um clone do Romero Britto, o Aleksandro Reis (acho que o nome é esse mesmo). A arte do cara é uma chupinhação sem-vergonha do trabalho do Britto… mas, dizemos, e daí? A coisa toda tem uma cara artesanal e é mesmo utilitária: quartos de bebês, murais de shopping, muros de clube. E essa estética das Meninas Superpoderosas. No final das contas, dá para culpar o cara? Ele está ganhando a vida da mesma forma picareta do Romero Britto, com as mesmas linhas grossas, bonecos felizes e padrões listrados/estrelados/de bolinhas.

    E isso, na era da reprodutibilidade técnica (lol, não) é plágio? É inspiração? É simplesmente o uso de uma técnica? Porque se abandonamos a mímese para criar arte que gere conflitos, pensamentos (etc e você sabe mais e melhor do que eu)… o que diabos é aquilo?

    Em tempo, um filme pode gerar pontas para continuações sem matar a arte de narrar. O problema é que eu não consigo pensar em nenhum exemplo, principalmente na era das trilogias, quando qualquer bosta é feita para durar três filmes ou “nossameudeus” gerar um quarto se ainda der lucro para enfim morrer em paz (olá, Shrek).

    • Bruno 28/12/2010 às 22:07

      Respondendo invertido, sobre o filme primeiro: o post foi uma resenha-desabafo. Eu realmente saí do cinema xingando Deus e o mundo. É claro que é possível gerar margens para continuações, ~especialmente~ em histórias de fantasia e ficção (onde um mundo inventado pode sempre ser revisto por outro ângulo). O que me deixou puto foi a maneira explícita como fizeram isso; em vez de simples sugestões sutis, fizeram pontas soltas explícitas — a maior delas: Tron “volta para o lado bom” absolutamente do nada, sem um gatilho sequer para desencadear sua reação, e então cai no fundo do mar, onde um zoom dramático mostra claramente que ele ainda está vivo. Na hora eu olhei pro lado e meu amigo também estava com a mão na boca e cara de “QUE DIABO FOI ISSO?”.

      (Pelo jeito não consigo falar mais desse filme se não for com raiva, haha)

      Quanto à era da reprodutibilidade técnica: isso já rendeu dúzias de brigas em conversas por aqui. É um tema complicado porque, querendo ou não, estamos numa época de transição, vivendo valores que estão se impondo num mundo onde eles não existiam antes. Meu próprio conceito sobre o que é arte e o que não é varia mais do que uma folha no vento, e por isso vou usar uma analogia com literatura, aqui (espero não falar besteira).

      Temos os autores consagrados e clássicos, que trabalham com o cerne literário: manipular a palavra, criar tramas complexas, narrar de maneiras únicas e – mais recentemente – pensar na palavra como imagem na página, na estrutura visual, enfim. E temos o Paulo Coelho e a Danielle Steel. Não vou entrar em mérito de serem bons ou não, mas eles pegam um fragmento do todo (no caso, um enredo ou uma bajulação de autoajuda semidisfarçada) e batem na mesma tecla até furar o teclado.

      Quem reconhece a obra como LITERATURA é quem? Os outros autores? Os críticos? O editor, com o bolso enchendo? O povo que, gosta do que lê e defende os escritores?

      Pelo jeito ainda é cedo pra responder isso. Pelo menos pra mim.

  2. Leila Le Fae 27/12/2010 às 23:39

    O Britto como artista é um ótimo Designer 8D ‘nuff said…

  3. Geroto 07/01/2011 às 9:05

    Foi proposital o post não ter um fim, assim como aconteceu com Tron? XD
    Na hora que eu achei que a coisa ia se desenvolver ela acaba…

    Mas quanto as continuações, tem me irritado tb, especialmente na literatura, onde hj só vemos livros em série…

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