Gombrich não morreu.

Só foi descoisificado.

Arquivos Mensais: março 2011

Há apenas arte.

A.M.: Mais uma pergunta, professor. O que o senhor pensa da nova tendência de estudar a História da Arte da mulher?

Gombrich: Nada.

A.M: Terrível resposta…

Gombrich: Não penso nada, porque nós simplesmente não sabemos nada. Veja: há muitas tapeçarias, coisas muito belas, feitas na Idade Média. Como se pode dizer se foram feitas por homens ou mulheres? Não se sabe. Não tem sentido. E não importa. Se eu ligo o rádio e ouço alguém tocando algo muito bem, não posso dizer se é homem ou mulher. Não tem o menor sentido, é irrelevante. Na literatura também, como saber em alguns casos? Jane Austen, por exemplo, sabemos que era mulher. Mas, Georges Sand poderia não ter sido mulher, ela inclusive tentou não ser. É algo que não posso realmente conceber. Não há uma arte da mulher. Há apenas arte.

(Arte-Educação: Leituras no Subsolo)

E um ótimo fim de mês da mulher pra todos vocês, menstruantes ou não.

Só faltam os robôs gigantes o/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ah gente, não resisti aos zumbis da Jane… <3 Pô, zumbis!

 

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Períodos e filtros

Semanas atrás chegou meu bebê novo, esse lindo, publicado em 1919 e só em 2010 traduzido e lançado no Brasil. É uma Daquelas Obras feitas por uma Daquelas Pessoas que simplesmente recusam respostas feitas e clichés superficiais sobre determinada idéia.

Johan Huizinga, bem como o lindo do Gould no campo da divulgação científica, desenvolve com uma naturalidade digna de relatos familiares toda a realidade religiosa, artística, cultural e política de uma época vista quase sempre como tétrica, triste, estagnada e improdutiva (principalmente)em termos artísticos, conceito esse já disperso pela análisa rica do outro lindo do Gombrich (só lindos hoje no post, pelo menos isso).

Toda e qualquer idéia de tempos passados possui interferência dos períodos posteriores, principalmente em períodos cujos registros são razoavelmente imprecisos e de difícil acesso (é muito mais fácil pra um cidadão comum encontrar um vídeo do Vargas na internet do que topar com uma trova cavaleiresca numa biblioteca, virtual ou não), a Idade Média sofreu ainda mais com isso por se estabelecer cronologicamente entre o turbilhão da Antiguidade Clássica e a florescência fulminante do Renascimento (que como pelo próprio nome diz, dá a entender que foi uma época de renovação e prosperidade em comparação com os séculos anteriores, a famigerada “Idade das Trevas”).

A análise de Huizinga foge destes lugares-comuns a respeito da Idade Média exatamente por não usar apenas registros históricos oficiais, mas também e principalmente os registros de cronistas das diversas cortes da época, pessoas que através de seus relatos sobre seus soberanos e sobre a vida nas cidades, conseguiram imprimir toda a essência profundamente dicotômica e intensa que marcou o período.

Dicotômica pois ao mesmo tempo em que o sofrimento, a fome e a penitência eram condições extremas, também o eram a alegria, o festejo e a riqueza; procissões e cortejos fúnebres de grandes e piedosos homens eram ocasiões onde nobreza e pobreza se misturavam numa única turba lamuriosa; durante grandes batalhas da guerra dos cem anos houve cidades que realizavam procissões diárias madrugada adentro, debaixo de chuva intensa. As paixões intensas levavam a sociedade entre dois pólos muito distantes.

O livro faz ainda relatos de diversos julgamentos de príncipes, sacerdotes e em como a população se colocava diante destas situações de maneira colérica e implacável (considerando que na maioria das vezes era o próprio povo que pedia pela cabeça do réu em grandes mobilizações e longas procissões), muitas vezes levando o alvo ao arrependimento sincero porém tardio.

Leva também a refletir um pouco sobre o famigerado “filtro da nostalgia” e seu colega que aqui eu chamo de “filtro da modernidade”, pois ao mesmo tempo em que tanta gente considera os tempos idos como ideais de vida, sociedade e cultura, clamando que vivemos uma época vazia e desprovida de significado, no outro lado temos os baluartes da vida moderna que dizem que o papel higiênico e a internet são os melhores argumentos de porque a atualidade chuta bundas, dando a entender que toda a sociedade antes disso sofria de maneira profunda por não possuir wi-fi e sabres de luz. Não, eles não tinham como sentir falta, assim como você não sabe a falta que faz saber como cerzir uma calça ou manejar uma espada pra salvar o próprio pescoço.

A parte mais difícil de se analisar e entender um período histórico e um estilo artístico é livrar-se dos julgamentos típicos da mentalidade contemporânea e entender que para aquelas pessoas, naquela época, aqueles recursos (sociais, culturais, etc) bastavam, livrar-se dessa prepotência e mesquinhez de dizer que eles eram ignorantes porque não sabiam o que nós sabemos e esquecer que na verdade, nós só construímos “tudo” isso porque eles “só” chegaram até onde seus recursos permitiram…