Gombrich não morreu.

Só foi descoisificado.

Arte primitiva: 40 mil anos de ócio

É claro que não há como saber com certeza pra que diabo servia a arte daquela época. 40 mil anos no passado estão temporalmente bem longe de fotografias, livros, documentários e – graças aos céus – um fundo de cromaqui com o Sérgio Chapelin. Só nos resta, então, ir atrás de povos primitivos que ainda existem nos dias de hoje e, a partir deles, tentar formular mais ou menos como os ~homens das cavernas~ viviam. A definição de “primitivo” aqui não é a de que esses povos sejam mais simples ou piores do que a “civilização”, mas sim a de que os mesmos são mais próximos de um modo de vida semelhante ao dos primeiros humanos.

J-A-M-A-I-S faria isso. (Ok, exemplo ruim. Mas experimente ir a uma igreja e rabiscar a cara de Jesus).

Imagine a nossa cultura judaico-cristã-rebecca-bláckica-ocidental atual. Não recortamos uma fotografia de um de nossos ídolos de uma página de revista para, em seguida, furar seus olhos, fazer sardas, chifrinhos, bigodes e o diabo a quatro (exceto santinhos de vereadores, esses são liberados, gente). Procuramos não desenhar ou escrever sobre um retrato de alguém próximo a nós, porque algo lá dentro da nossa cabeça diz que, ao fazer isso, estamos de certo modo machucando a imagem interna que temos da pessoa. Que se chame de alma ou de impressão, parece que estamos danificando também o retratado, não apenas a sua representação.

Isso acontece nos dias de hoje, quando somos bombardeados por imagens de todo o tipo, vindas de todo lugar. Podemos copiar e reproduzi-las quase infinitamente e, ainda assim, temos esse vulto de vida por trás de cada uma delas. Há 40 mil anos, quando qualquer imagem era uma coisa única, praticamente irreproduzível, o valor da vida de cada uma delas era talvez 40 mil vezes mais forte que o que temos atualmente.

As imagens não eram simples representações das coisas. Elas eram, de certo modo, uma parte das coisas. A arte primitiva buscava incorporar essa vida existente no mundo, capturá-la, tomá-la entre os dedos.

Milênios antes da invenção da tesoura e da gilete.

Não há como falar bem do modo de vida nômade, tendo a gente vivido desde o nascimento no mais puro sedentarismo (alguns mais que os outros, como é o meu caso). Os povos primitivos, quando eram bem, er, primitivos, viviam da caça e da coleta de frutas e vegetais. Algo em que eu nunca havia parado pra pensar, no entanto, foi esclarecido há algumas semanas pelo Caio, nosso querido biólogo/paleontólogo/fã-do-Batman/noivo-da-Leila: esse povo vivia de pegar fruta e caçar. As mulheres pegavam umas frutinhas aqui e ali, dia sim, dia não, os homens só se davam ao trabalho de ir caçar em dia de jogo do Curíntia, e toda a carne durava semanas, dividida por todo o grupo.

Ou seja, eles tinham muito, mas MUITO tempo livre, excetuando-se aí os momentos em que tinham que fugir de algum tiranossauro faminto (perdão, Caio). Eles devem, sim, ter desenvolvido ferramentas e técnicas incríveis com todo esse tempo livre, mas tinham um problema de ordem tecnológica: ainda não haviam aprendido a fundição, e o Wal-Mart ainda não existia, logo, se viravam com o que tinham à mão: pedras, ossos, chifres, terra, sangue, madeira, tudo muito old school.

Vênus de Willendorff. 11cm de altura, 24 mil anos. Poucos resistem aos seus ~encantos femininos~.

Já parou pra pensar que doido é caçar sua própria comida, e depois usar os restos dela pra fazer ferramentas? Eles eram muito à frente do seu tempo, com todo esse papo de sustentabilidade que enche o saco hoje em dia. Dos mamutes, elefantes e derivados, usavam as presas de marfim para esculturas delicadas, e até mesmo fabricavam flautas e instrumentos de sopro rudimentares usando ossos ocos de aves. Sem falar nos clássicos tacapes feitos de osso de tiranossauro. Estamos nos focando nos objetos ~artísticos~ aqui, mas é claro que mais do que estes, o pessoal daquela época criava diversas ferramentas para uso no dia-a-dia: prendedores de cabelo, lâminas, pontas de lança, amoladores para as armas, controles remotos, etc.

É importante lembrar que, mesmo que aqui tenhamos separado os objetos “artísticos” dos outros, os homens daquela época não tinham essa distinção. Toda e qualquer produção de sua parte era realizada com o intuito de cumprir uma função específica. Estatuetas eram objetos rituais para atrair coisas específicas, assim como facas serviam para cortar carne. Tudo era objeto. Nada era feito por simples prazer estético ou apreciação.

Muitos dos trabalhos em escultura, supõe-se, eram semelhantes aos talismãs e patuás dos dias de hoje, servindo como representações daquilo que seria bom carregar consigo. Incluem-se aí pequenas estátuas de animais e de figuras humanas, gravadas em alto-relevo sobre presas de marfim ou então esculpidas em pedra. Esses objetos eram pequenos, normalmente do tamanho máximo que o material permitia sozinho, sem emendas ou prolongamentos artificiais. Eu imagino que, por esse povo todo andar a pé, também devia ser difícil andar por aí carregando uma estátua humana em tamanho natural, o que os forçava a manter tudo no formato de bolso (mesmo que eles não tivessem bolsos).

A menos conhecida Venom de Willendorff.

Dessas esculturas, um tipo muito específico pode ser destacado: as figuras femininas. Essas, chamadas de vênus em homenagem a – não diga! – Vênus, deusa romana da fertilidade, do amor, da beleza e do meretrício¹, representavam a quintessência da mulher: peito e bunda. Ok, do ponto de vista mágico e incrível que as coisas eram pra esse povo. Eles provavelmente não tinham muita noção de que o homem tinha uma parte importante na reprodução, então as mulheres deviam ser vistas como criaturas meio mágicas e bizarras, que às vezes ficavam inchadas e expeliam um novo caçadorzinho pro grupo (o que era excelente). Seguindo o princípio de que eles criavam essas imagens do que queriam ter, nada mais lógico do que esculpir mulheres grávidas, com o quadril largo e os peitos inchados da amamentação.

A mais famosa das vênus (veni? vênuses?) com certeza é a Vênus de Willendorff, aquela bolotinha fofa que todo mundo acha que é gigantesca, mas que na verdade tem pouco mais que dez centímetros. Aquela senhorinha tem 24 mil anos de idade, e é uma mocinha perto da mais antiga figura humana conhecida, a Vênus de Hohle Fels (também chamada de Vênus de Schelklingen), com seus respeitáveis 40 mil anos. Cabe aqui a nota de que os nomes das vênus vêm do lugar no qual elas são encontradas. Logo, se fosse encontrada uma aqui em Areiópolis, provavelmente seria chamada de Vênus de PQP.

Vênus de Hohle Fels. 6cm de altura, 40 mil anos de idade. Sim, parece um frango assado.

Mas chega de escultura e vamos falar das pinturas incríveis. “Ah, mas eles nem sabiam desenhar, faziam rabiscos igual desenho de criança.”

Exceto que não. Pinturas contemporâneas às esculturas que acabamos de ver ali eram muito bem desenvolvidas sim, senhor. Com direito a degradês, luz e sombra, e até mesmo a acompanhar o relevo das paredes para reforçar o efeito do volume dos corpos. Cadê seu Da Vinci agora?

A questão é que há o péssimo hábito de pensar que o ~homem primitivo~ é menos desenvolvido que o ~homem civilizado~. O último passa o dia no twitter, o primeiro passava o dia se empanturrando e engravidando a tribo inteira (e eram todos magrinhos atléticos). A verdade é que, em 40 mil anos, o cérebro e o sistema cognitivo humanos não mudaram praticamente nada. Esse período de tempo, incomensurável pras nossas vidinhas de 70 anos, não é mais que um pum pra evolução dos seres vivos. Então sim, o tiozinho de milhares de anos atrás tem exatamente a mesma capacidade que um tiozinho de hoje, o que mudou mesmo foram apenas os sistemas culturais que se tornaram cada vez mais um amontoado de informações que eu não sei se são tão úteis assim. Enfim.

Bisão na caverna de Altamira, Espanha. Cerca de 25 mil anos. É interessante notar que não era pintado e pronto. Várias gerações posteriores continuavam restaurando as imagens, reforçando e adicionando elementos.

Fato é que eles tinham, sim, técnicas incríveis para a pintura mural, e até mesmo sistemas abstratos de símbolos em torno de suas composições. Desenhavam, assim como esculpiam, coisas que queriam no próximo Natal: bisões, cavalos, plantações e tudo o que há de bom. Eram representações figurativas que não perdem em nada para obras de muita gente de hoje em dia (especialmente de hoje em dia). Das abstrações que mencionei, muitas poderiam significar lanças, ferimentos e movimentos feitos pelo ser retratado. Não raro desenhavam os animais cercados pela tribo, esperando que a cena se materializasse na real life.

"E é assim que se faz um sfumatto nessa perspectiva central, Ugubbu."

O que reforça a crença de que essas pinturas eram signos mágicos era a sua própria feitura: não eram produzidas em lugares abertos, lá nos paredões pra todo mundo ver. Não eram mainstream. Os artistas-feiticeiros não gostavam do grande público, e se enfiavam nos mais profundos buracos das cavernas pra poder pintar suas obras em locais inacessíveis – guardando suas imagens muito bem guardadas, para que de lá não escapassem, exatamente o que queriam que acontecesse nas suas caçadas. Capturando a imagem e prendendo-a no fundo de uma caverna, levariam com ela sua parte viva, drenariam sua energia e conseguiriam sua caça.

Fora a parte ~mística~ de tudo isso, né? Se enfiar sozinho num buraco, levando consigo uma tocha e seus materiais de pintura – extrato de tudo quanto é planta para obter cores diversas, terra, barro, água e, principalmente, ~sangue~, não era pra poucos.

Numa conclusão rápida para pseudoaula de história, ficamos por aqui. A função da arte do paleolítico era não ser exatamente arte, como conhecemos hoje, mas era apenas a construção de imagens que, de maneira ritualizada, serviria para algum propósito específico, o de capturar a essência de algo desejado.

Fosse esse algo desejado uma caçada ou mais filhos para ter uma tribo maior, o importante é que as imagens trariam um pedaço daquilo com elas e, por mais que esse pensamento pareça simplório e ultrapassado, ainda o mantemos com nossas imagens de santos, figas, tatuagens e álbuns do orkut. Seja para manter sempre viva uma memória por meio de uma imagem, seja para que momentos e eventos sejam atraídos ou se repitam. A única diferença é que hoje as imagens existem numa quantidade tão grande que paramos de nos impressionar com elas – até encontrarmos aquelas únicas, diferentes, originais, que chamam a nossa atenção e que nos fazem pensar em alguma coisa nova. A essas damos o nome de arte.

Gente que não reclama.

Honrando o nome do blog, estou trazendo pedaços de coisas do Gombrich que acho por aqui, e que acho bacana dividir. E justificar porque o amamos. <3

Sabemos da existência da Idade da Pedra e da Idade do Ferro, da Idade Feudal e da Revolução Industrial. A nossa visão desse processo  pode ter deixado de ser otimista. Podemos estar cônscios tanto das perdas como dos ganhos nessas sucessivas transformações, que nos transportaram até a Era Espacial. Mas, a partir do século XIX, ganhou raízes a convicção de que essa marcha das Idades é irresistível. Sente-se que a arte, não menos do que a Economia ou a literatura é empolgada por esse processo irreversível. Na verdade, a arte é considerada a principal “expressão de uma época”. Aqui, em particular, o desenvolvimento da história  da arte (e mesmo um livro como este) tem seu quinhão na propagação dessa crença. Não sentimos todos nós, à medida que folheamos suas páginas, que um templo grego, um teatro romano, uma catedral gótica ou um moderno arranha-céu “expressam” diferentes mentalidades e simbolizam tipos diferentes de sociedade? Existe certa verdade nessa convicção, se com ela quisermos simplesmente significar que os gregos não poderiam ter construído o Rockefeller Center e talvez não quisessem construir a Notre Dame de Paris. Mas, com demasiada freqüência, é subentendido que a condição da Idade deles, ou o que se chama o seu espírito, estava fadado a desabrochar no Partenon, que a Idade Feudal não podia deixar de criar catedrais e que nós estamos destinados a construir arranha-céus. De acordo com esse ponto de vista, do qual não compartilho, é fútil e absurdo, evidentemente, não aceitar a arte do período a que  se pertence. Assim, torna-se suficiente que qualquer estilo ou experiência seja  proclamado “contemporâneo” para que a crítica sinta a obrigação de o entender e promover. É através dessa filosofia de mudança que os críticos acabaram perdendo a coragem de criticar e passaram a ser meros cronistas de acontecimentos. Justificaram essa mudança de atitude apontando as notórias falhas de críticos mais antigos, que não reconheceram nem aceitaram a ascensão de novos estilos. Foi, sobretudo, a recepção hostil inicialmente dispensada aos impressionistas, depois guindados  à fama e fazendo jus a altos preços, que propiciou essa falta de coragem. Surgiu e espalhou-se a lenda de que todos os grandes artistas eram sempre rejeitados e  escarnecidos em seu tempo; por isso o público faz o louvável esforço de não mais rejeitar nem zombar de coisa alguma. A idéia de que os artistas representam a vanguarda do futuro, e que somos nós e não eles quem fará triste figura se não os soubermos apreciar, apossou-se, pelo menos, de uma vasta minoria.

GOMBRICH, E. H. A história da arte. 16a. edição, p. 612. São Paulo: LTC Editora, 2000.

Tron, Romero Britto e Hollywood

Aí que sexta-feira Romário (O Que Ainda Não Escreveu Aqui) e eu fomos ver Tron: Legacy.

AQUELE é o Tron.

Dois dias antes, resolvi assistir ao original, de 1982. Ouvi rumores de que, na época em que foi lançado, o filme só não ganhou mais prêmios porque a quantidade de efeitos digitais era tanta que muitos  consideravam isso trapaça. Sim, trapaça. Afinal, não eram coisas de verdade que estavam na tela. Eram truques de computador.

(É só lembrar que o fantasma de Ghost era um avanço incrível, e olha que foi feito oito anos depois.)

Enfim. Vi o original e achei incrível. Óbvio que em termo de computação gráfica não é nada se comparado ao que temos hoje, mas era algo sem precedentes pra década de 1980. O enredo do filme é bacana: Kevin Flynn, um hacker, tenta invadir o sistema de uma empresa, a ENCOM, que pertenceria a ele caso seus projetos não tivessem sido roubados pelo atual manda-chuva do lugar. Mil coisas acontecem, Flynn acaba sendo sugado de corpo e alma para dentro do sistema e interage com os programas, naquele mundo parecendo pessoas muito bizarras e malvestidas.

Os programas têm uma espécie de religião, e acreditam em seres maravilhosos chamados de ~usuários~, veja só. Os Usuários são as pessoas que os criaram e se comunicam com eles como se fossem guias espirituais. Há um programa que ajuda Flynn em sua jornada, chamado Tron. Ele foi criado para ser independente do sistema mestre, e luta pela liberdade. Etc, enredo, enredo, vilão, etc. Fim. Como um bom filme hollywoodiano pré-anos 2000, é contido, conta uma história simples, acaba e pronto. Legal. A vida continua.

O mesmo não acontece com Tron: Legacy.

O legado de quem, mesmo?

Romário e eu fomos assistir sem expectativa alguma. Eu mesmo só tinha ido pela trilha sonora — e olha que eu nem conhecia Daft Punk; sim, me crucifique — e pelo visual. O mesmo pra ele. Acabou que o filme superou em muito as nossas expectativas: era lindo em todos os aspectos visuais e sonoros e, descontando os eventuais buracos na história, ficamos animados e surpresos ao assistir. Pelo menos até os últimos quinze minutos, que devem ter sido deixados pro estagiário de office-boy da Disney escrever.

Acontece o seguinte: em Legacy, Kevin Flynn está desaparecido há 20 anos. Seu filho, Sam Flynn, agora dono da ENCOM, não faz ideia de onde o velho foi parar, até que ele próprio acaba entrando na Grade — agora o mundo-sistema tem nome — e descobre que um programa chamado CLU, criado à imagem e semelhança de seu pai, controla tudo e é vilão e isso.

Spoilers aqui. Depois de mil batalhas e efeitos especiais que fariam o Narrador da Sessão da Tarde enfartar ao descrevê-los, Sam encontra o pai e uma programa chamada Quorra; os usuários  têm que sair da Grade para desativar CLU por fora, por meio de um portal que, segundo o Flynn mais velho, é impossível de se alcançar.

Exceto que não. Tem um trem-coisa que vai em linha reta até o lugar (?). É desse tipo de furo de roteiro que encontra-se lá. Fora que em Legacy os programas dançam, bebem, comem e até jogam Go. Eles não são mais programas, como… era pra ser.

Ah, e o Tron mal  aparece. Quer dizer, o filme tem o nome dele, mas ele fica em segundo, não, em terceiro plano. Aparentemente foi reprogramado por CLU e agora virou um subvilão de poucas palavras (o pior tipo). É por culpa dele que o final do filme começa a descambar. Tron morre, mas não morre (deixando uma ponta solta); Flynn-pai e CLU morrem, mas não morrem (outra ponta solta). Sam consegue escapar para o mundo real.

Junto com Quorra. Que é um programa. Em vez dela sair do computador como um arquivo .exe num pendrive, não, é uma mulher de carne e osso passeando na garupa da moto do protagonista (nessa parte o Romário estava morrendo).

Resumindo, o filme é lindo. Visual e sonoramente impecável. Claro que tem os furos de roteiro já esperados da média dos filmes farofa de Hollywood, mas é lindo. Nós dois saímos xingando muito no Twitter (mentira), tamanha foi a decepção com o final. O que me irritou profundamente, na conclusão,  foi a quantidade absurda de pontas soltas propositais que o longa deixou. Acabou-se a era de se criar histórias bacanas pra passar o tempo. Agora cria-se franquias imensas, coisas que serão legais e obrigatoriamente terão continuações.

O que nos leva ao segundo assunto que pensei pra esse post. Franquias e continuações. Mais ou menos.

Pouco antes de Romário e eu entrarmos no cinema, vimos umas estampas num painel, lá no shopping, cheias de coisas do Romero Britto. Imediatamente reagimos com o olhar Ugh, Romero Britto (é engraçado, peça pra ver um dia) e desdenhamos da imagem quando passamos. Ontem havia projeções de brittonices no cenário do Domingão do Faustão — como eu me sinto mal por falar disso aqui no GNM —, o que me fez decidir emendar esse assunto nesse post.

Romero Britto. Atlantic Family Tree. Acrílico sobre tela, 203 x 229 cm.

O cinema das massas tem as franquias planejadas supermilhonárias. Romero Britto tem a receita do sucesso. Pena que só funciona pra ele: faz anos que o cara faz a mesmíssima coisa e todo mundo adora. Não vou dizer que é feio, porque não é. É legal, colorido, bacana, mas não muda. Fora que está estigmatizado, de tão divulgado. Não consigo olhar pra uma pintura dele e não pensar numa caixa de Omo ou em alguma instituição de crianças com câncer.

(Você pode ver mais no site oficial dele).

Eu sei que tem muita gente que nem o considera um artista, dada a repetição e a fórmula aparentemente pronta das pinturas — linhas grossas, cores puras, estampas mil, estilização extrema — agora se ele é mesmo ou não, é outra história. O fato é que Britto foi viver nos EUA e fez a vida por lá. Seu estilo é visto com bons olhos por muitas marcas que o chamam pra produzir imagens promocionais para cartões, camisetas, cartazes, ou seja lá que tipo de instalação ~artística~ tenham em mente.

A arte de Romero Britto é hollywoodiana. Amamos, é linda, todo mundo entende e acha legal, mas é basicamente a mesma coisa há décadas. Mudar faria ele perder público? Continua sendo arte, mesmo que seja feita pra fins comerciais de entretenimento de massa?

Arte Clássica e a Genitália PP

Fídias (?) "Hermes Logios." Cópia romana em mármore a partir do original do século V a. C.

Tá certo que já faz quase um mês desde o último texto aqui, mas vamos continuar falando dos gregos (aqueles mocinhos alegres que criaram as bases da civilização ocidental, caso você seja um eremita).Na verdade esse era pra ter sido o primeiro post do GNM, mas acho que eu ainda não tinhas as bases corretas pra escrever. Agora acho que já é possível. Vou tentar responder à questão magnânima, crucial e terrível da arte grega, aquela que se tornou o padrão clássico do ideal de beleza do corpo humano, aquela que fez Michelangelo parir o Davi, aquela que alguns dizem que era colorida, aquela linda e maravilhosa coisa que causa olhares tortos pra saber se não é de verdade… e que fez todos os homens como pintos minúsculos.

Isso. Alguém precisa falar disso! Essa pergunta não pode ser um daqueles tabus inexplicáveis na quinta série.

Todo mundo já se perguntou. Por quê? Por que os pipizinhos de molequinho nos corpos de homenzarrões?

Elenquemos hipóteses:

  1. Os gregos tinham, de fato, uma involução fálica.
  2. Os gregos preferiam coisas em tamanhos que não os machucassem. E tinham vergonhinha~
  3. Em contraposição à hipótese 1: os gregos eram modestos e não queriam ofuscar seus vizinhos europeus.
  4. Gregos consideravam coisas pequenas mais humanas, e maiores mais monstruosas.
  5. Nanomáquinas.

Pra dar uma escrutinada sobre o assunto eu vou usar Arte e Ilusão, do Gombrich (♥) e uns trechinhos de Greek Homosexuality, de Kenneth Dover, que achei perdidos por aqui. Vamos à análise.

I. Involução fálica

Bem, falar que os gregos tinham pinto pequeno seria falho. Eu acho. Se fossem japoneses dava pra falar com certeza. Podemos consultar a Wikipédia e procurar a média peniana mundial e a média dos gregos, pra ver se isso justificaria os pipis das estátuas. Mas não vamos fazer isso.

II. Frescura

Sabemos da preferência sexual dos gregos.

Tá, não sabemos, mas sabemos da fama. Eles basicamente eram capazes de ficar excitados com qualquer coisa que fizesse sombra e fosse capaz de gemer (ainda que essa segunda característica não fosse essencial, mas sabe como é, teria mais graça). Gente, é só pôr no papel os casos de Zeus. O deus-supremo helênico teve filhos com mulheres, árvores, pedras, consigo mesmo (masturbação não causa gravidez, não se preocupe), com animais, com conceitos da natureza, etc, etc. Veneravam um ninfomaníaco, é óbvio que eles não ligavam pra tamanho ou formato das coisas.

Pintor desconhecido. Ganímedes fazendo uma libação a Zeus. c. 490 a.C.

Adorar um ninfomaníaco não era nada. Ao contrário de hoje em dia, na nossa sociedade judaico-cristã-obâmica-ocidental, os gregos ADORAVAM o corpo. Não que hoje não adoremos, mas é que eles não tinham pudores em mostrar seus atributos; não era um tabu pecaminoso ou coisa do tipo. Era mais pra “é bonito, mostre”. E tenha orgulho disso. Olimpíadas eram disputadas com todo mundo peladão. Usar roupas em eventos esportivos era considerado bárbaro (eles diriam out): ter vergonha do corpo era falta de civilidade. O que faz um sentido terrível, não?

III. Modéstia

Não.

IV. Que pênis grande você tem!

Oh, aqui encontramos mais um pouquinho de sentido. O pequeno e o grande, o natural e o monstruoso. Sim, isso era verdade. Haviam, sim, representações artísticas que envolviam pênis grandes, enormes, monstruosamente assustadores. Tinha até um deus do pinto, Príapo.

Anônimo. Príapo-Hermes, ou Príapo com Caduceu. Afresco em Pompeia, c. 89 a.C. - 79 d.C.

A diferença aqui era estética e simbólica: pipis pequenos eram reservados para a representação de homens comuns, enquanto os grandes (mesmo que visualmente “normais”) eram utilizados em seres selvagens, como sátiros ou animais.

V. Nanomáquinas

Na verdade não tem absolutamente nada a ver com isso aqui, mas é que seria divertido se tivesse.

Resumindo:

Tudo uma questão de ideal de beleza. Do mesmo modo que as estátuas eram representadas praticamente sem pêlos, por exemplo. Lembra do schemata, do post anterior? Ainda que os gregos tivessem superado a pressão do uso dos esquemas tradicionais, resquícios sempre existem. Pipizinhos eram um desses resquícios (sem trocadilho), do mesmo modo que praticamente todos os rostos eram iguais, todas as mãos, todos os cabelos e todos os padrões de vestimenta, a menos que estivessem deliberadamente representando algo único. Esquemas. Só que estamos tão condicionados pela nossa visão de sexualidade proibida, que a primeira coisa que percebemos é… o pinto. As outras coisas, tão estranhas quanto, desaparecem.

Hagesandro, Athenedoro e Polidoro. Laocoonte e seus filhos. Cópia em mármore a partir de um original de 200 a. C.

Na cabeça dos gregos, um pipi pequeno, lisinho e não circuncidado era mais olhável que uma coisa grossa, feiosa e grande. Esses eles deixavam pra velhos tarados e bichos. Além do mais, pênis grandes eram um símbolo de fertilidade, e esse era mais um dos motivos pelos quais eles não eram representados dessa maneira; as estátuas e pinturas, sendo a maioria delas simbólica, não eram de deuses da fertilidade, e sim de homens mortais. Colocar uma coisa ali que aparecesse demais iria mudar o significado todo da coisa.

Para finalizar, isso não aconteceu só com os gregos. Coisas fálicas mais coisudas são associadas à pura sexualidade, fertilidade ou selvageria em outras culturas. Especialmente na “nossa”. Por exemplo, numa passagem de Ezequiel, 23: 20, temos o relato bizarro sobre a profissional do sexo Ooliba, que ardia em amor “por luxuriosos, cujo membro era como um membro de asno, e sua lubricidade igual à dos cavalos.” (citar a Bíblia significa que eu estou certo).

Como a arte grega foi a base da pintura e da escultura até o Renascimento, é claro que por muito tempo os homens foram representados com um membrinho. A partir da quebra dos cânones da arte renascentista, ali depois do século XVII, tudo se normalizou, e temos pintos normais.

Mas não temos mais tantos nus masculinos. Não é um padrão interessante?