Gombrich não morreu.

Só foi descoisificado.

Arquivos da Categoria: Arte Moderna

Gente que não reclama.

Honrando o nome do blog, estou trazendo pedaços de coisas do Gombrich que acho por aqui, e que acho bacana dividir. E justificar porque o amamos. <3

Sabemos da existência da Idade da Pedra e da Idade do Ferro, da Idade Feudal e da Revolução Industrial. A nossa visão desse processo  pode ter deixado de ser otimista. Podemos estar cônscios tanto das perdas como dos ganhos nessas sucessivas transformações, que nos transportaram até a Era Espacial. Mas, a partir do século XIX, ganhou raízes a convicção de que essa marcha das Idades é irresistível. Sente-se que a arte, não menos do que a Economia ou a literatura é empolgada por esse processo irreversível. Na verdade, a arte é considerada a principal “expressão de uma época”. Aqui, em particular, o desenvolvimento da história  da arte (e mesmo um livro como este) tem seu quinhão na propagação dessa crença. Não sentimos todos nós, à medida que folheamos suas páginas, que um templo grego, um teatro romano, uma catedral gótica ou um moderno arranha-céu “expressam” diferentes mentalidades e simbolizam tipos diferentes de sociedade? Existe certa verdade nessa convicção, se com ela quisermos simplesmente significar que os gregos não poderiam ter construído o Rockefeller Center e talvez não quisessem construir a Notre Dame de Paris. Mas, com demasiada freqüência, é subentendido que a condição da Idade deles, ou o que se chama o seu espírito, estava fadado a desabrochar no Partenon, que a Idade Feudal não podia deixar de criar catedrais e que nós estamos destinados a construir arranha-céus. De acordo com esse ponto de vista, do qual não compartilho, é fútil e absurdo, evidentemente, não aceitar a arte do período a que  se pertence. Assim, torna-se suficiente que qualquer estilo ou experiência seja  proclamado “contemporâneo” para que a crítica sinta a obrigação de o entender e promover. É através dessa filosofia de mudança que os críticos acabaram perdendo a coragem de criticar e passaram a ser meros cronistas de acontecimentos. Justificaram essa mudança de atitude apontando as notórias falhas de críticos mais antigos, que não reconheceram nem aceitaram a ascensão de novos estilos. Foi, sobretudo, a recepção hostil inicialmente dispensada aos impressionistas, depois guindados  à fama e fazendo jus a altos preços, que propiciou essa falta de coragem. Surgiu e espalhou-se a lenda de que todos os grandes artistas eram sempre rejeitados e  escarnecidos em seu tempo; por isso o público faz o louvável esforço de não mais rejeitar nem zombar de coisa alguma. A idéia de que os artistas representam a vanguarda do futuro, e que somos nós e não eles quem fará triste figura se não os soubermos apreciar, apossou-se, pelo menos, de uma vasta minoria.

GOMBRICH, E. H. A história da arte. 16a. edição, p. 612. São Paulo: LTC Editora, 2000.

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Arte Merderna

Tarsila do Amaral. Abaporu. Óleo sobre tela, 85 x 73cm. 1928.

Oh, o horror. Resolvi falar de arte moderna. Maldita arte moderna. A pedra no sapato de qualquer professor de arte, quando o aluno vê o Abaporu (maldito Abaporu), levanta a mão com um sorriso diabólico na cara e diz “que coisa torta!”. É. Torta. E Tarsila se revira no caixão, obrigado.

Comecemos do começo. Pra não dizer que tô falando porcaria (sozinho), vou usar como referência o livro Modernismo, de Charles Harrison, da Cosac & Naify (reclamem com ele).

O que é “moderno”? Não, sua geladeira duplex não é moderna. Nem seu Ray Ban. Muito menos a Lady Gaga.

“Modernização” foram as transformações tecnológicas e culturais que aconteceram na Europa durante e imediatamente após a Revolução Industrial, lá pelo finalziiiinho do século XVIII (isso é um “18”). Hoje em dia, ser moderno significa ser atualizado. Também significava exatamente a mesma coisa no século XIX (isso é um “19”). Olha só que evolução. Super duper!

Claro que isso complica quando a gente fala de arte e os seus –ismos. Uma obra moderna, pra maior parte da humanidade, é qualquer coisa bizarra e que ninguém entenda*, mas que algum cara jura que é arte e pôs na exposição. Aí todo mundo vai com a família feliz na Bienal, olha pra um monte de guarda-chuva pendurado no teto, aponta com o queixo e concorda com o nada, franzindo o cenho e fingindo que entendeu “arte moderna”. Arrã (e não, não é).

Marepe. Cânone. Instalação com 75 guardachuvas na 27ª Bienal de Arte de São Paulo. 2006.

Tipo… oi?

Com tantas mudanças acontecendo na Europa, políticas, econômicas e ideológicas, é claro que os artistas iam seguir a tendência (porque isso é in). Mundo novo, vida nova, yey, arte nova. Eu queria muito citar uma coisa mais curta aqui, mas eu achei esse trechinho do tio Harrison tão legal que resolvi colocar inteiro. Com observações muito phynas:

“[…] o objetivo de ser ‘moderno’ nasceu de maneira característica de uma certa percepção segundo a qual o presente estava sendo indevidamente formado à imagem do passado [que já era out], assim como de uma conseqüente perda de identificação com a tendência dominante da cultura. É razoável pensar que, onde essa perda foi significativa em termos da produção de formas distintas de arte, isso não pode ter sido apenas a experiência de alguns poucos indivíduos socialmente desajustados (ou ‘gênios’) [LOLOLOL], mas deve ter coincidido com alguma mudança maior na auto-imagem de uma parte substancial da sociedade. Se o modernismo foi à época antiacadêmico em suas origens e desenvolvimento, como em geral foi [*risos*], isso não ocorreu simplesmente porque alguns artistas se recusavam a conformar-se aos estilos clássicos [que não tinham updates significativos ou uma nova versão desde o século XVI]. Ocorreu, sim, porque todo o modo de existência em que se realizavam as intuições críticas modernistas era incompatível com o mundo de valores que as academias representavam.” (HARRISON, 2000, p. 6)

“Gênios” também ficou na sua cabeça, né? Pô, que artista é tudo desajustado social a gente sabe, Charles.

A partir da fala aqui do Charles, podemos considerar umas coisinhas. Os caras queriam se livrar do passado. Queriam se ver livres pra pintar do jeito que bem entendiam.

Pense comigo, leitor querido. Os caras fizeram ISSO aqui:

Paul Cézanne, Banhistas. Óleo sobre tela, 208 x 249cm. 1899-1906.

Depois de uns 500 anos DISSO aqui:

Rogier van der Weyden. Maria Madalena. Óleo sobre madeira, 41 x 34cm. ca. 1430.

Sim, isso é um exagero, necessário para explicar. Não se pintou do mesmo jeito por 500 anos. Mas a pintura não mudava tanto. A maneira de representar as figuras sim: tinha toda a técnica das quatro tartarugas ninjas (às vezes me pergunto se o Michelangelo realmente gostava de pizza), havia os mestres dos países nórdicos, os espanhois e tal; mas as mudanças se resumem à perspectiva, à sombra, o uso da cor, mas nada muito além disso (que fica para um futuro post). Os modernistas transformavam a pintura em pintura pura. Em tinta-sobre-a-tela, não apenas retratos. Em boa parte dos casos, especialmente no começo, ainda era uma representação da realidade, isso eles não negavam. Mas tinha um rompimento com o estilo passado. Agora dava pra ver a marca do pincel, as cores escolhidas por puro gosto ou qualquer coisa aleatória. Havia a marca individual de cada artista.

E não, eles ainda não usavam cocô como tinta. Eu acho.

O modernismo foi um valor, não um movimento. De fato, houve muitos deles, um pior que o outro na sua corrida armamentista de lançar moda primeiro (moda, moderno, hã, hã?). Um dos que conseguiram mais fãs (eu incluso) foi o Impressionismo, conhecido galacticamente por meio do Monet.

Claude Monet. Mulher com sombrinha (Camille e Jean Monet). Óleo sobre tela, 100 x 81cm, 1875.

Moneeeeeeeeeeet! ~

Se parar pra pensar, olhar de perto, as coisas que o Monet fazia eram só manchas na tela. Rápidas e precisas. O Impressionismo roots praticamente não tinha esboço. Era tudo feito na hora, ao ar livre, com o objetivo de explorar o efeito da luz nas coisas. Cabe um parêntese aqui: impressionistas foram os primeiros a sair do ateliê pra pintar. Depois de SÉCULOS de pintura. Antes era tudo feito a partir de esboços, desenhos ou de memória. Tá vendo a dimensão da coisa? Eles eram demais! *fanboy*

Isso me fez ter uma idéia estranha agora. Na época, quando os artistas modernos abriam suas exposições, o povo ficava chocado e tinha ataque de pelanca. Onde já se viu, manchas de pincel, coisas mal acabadas, depois de MILÊNIOS dos cânones de Da Vinci? Hoje em dia, é difícil encontrar alguém que não goste do trabalho deles. Monet poderia ser endeusado por praticamente qualquer um que goste de pintura.

Será que o mesmo não acontece com os artistas contemporâneos?

Edith Derdyk. Extensão. Plástico, cordonet. Dimensões variáveis,1994-95.

Quer dizer… depois de quase um século que as pessoas realmente passaram a apreciar e dar valor para as obras daquele período. E todo mundo, hoje, só repudia e fala mal da arte atual. Será que não está acontecendo a mesma coisa?

Stefani Joanne Angelina Germanotta. Rena Vitruviana Bipolar. Coelho mutante sobre cabeça (intervenção). Dimensões indefinidas, 2010.

Esse tema ainda vai render muitos posts aqui.

Não puxei saco do Monet o suficiente.