Gombrich não morreu.

Só foi descoisificado.

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God of Warhol

Motivado pela tirinha (supracolada) do Saturday Morning Breakfast Cereal (e por cutucões de amigos falando da mesma), passei uns dias pensando em como escrever sobre videogames e arte. Pois bem. Nesse mundo de arte contemporânea maravilhoso, encantador e cheio de unicórnios, arcos-íris, latinhas de cocô e não-coisas, temos o eterno arranca-rabo OH DEUSES O QUE É ARTE?

Não vou definir nada aqui. Como bom lorde inglês (que não sou), vou rodear o assunto pelas bordas e deixar que você se vire pra tirar sua própria conclusão. Depois vou tomar chá.

Videogames são legais. Eu adoro jogar, ainda que meu repertório GAMÍSTICO seja relativamente pobre. Tem os jogos-farofa-blockbuster da série Final Fantasy, os farofa-sanguinolentos como God of War e os farofa-doentios comoKatamari Damacy. Não, “farofa” não é uma categoria de jogos (espero). Só digo isso porque são jogos pra se divertir, ir lá, matar monstros, andar pelo cenário, quebrar coisas, amontoar coisas, ganhar pontos, decapitar a Medusa, reclamar da tradução ruim ou do roteiro furado e sem noção (Devil May Cry, estou olhando pra você).

 

Katamari Damacy: sua mãe é tão gorda que tem um campo gravitacional só dela.

Vamos pegar God of War como exemplo, aqui. Eu gosto dele. É legal. Até meu pai, que mal sabe onde ficam os botões do controle, adora, e começou a jogar videogame graças à explosão de sangue e vísceras e pedaços e sangue e vísceras que o Kratos deixa pelo caminho. Ele joga por jogar, não faz os combos direito, se perde quando vai apertar os botões, mas é raro eu ver ele se divertir tanto. E ele se diverte. Eu comecei a jogar a série – pasme, sim, é a mais pura nerdice – por causa da mitologia grega que existe no pano de fundo.

Se bem que tudo fica no pano de fundo, que fica sujo de tanto sangue que tem no jogo. Já nas primeiras cenas de God of War 1, eu (continue pasmo, por favor) ficava analisando a arquitetura dos lugares e vendo como tudo aquilo era errado e anacrônico e faria minha professora de História da Arte ter um colapso nervoso no meio de fustes e frisos. Mas ei, é um jogo. Acasale-se a história! (gostou da substituição da palavra com F? Eu sim!).

God of War é lindo. As cenas de ação parecem saídas de filmes (mas não são cinema) e as atuações dos personagens são dignas de uma novela das 8 (do SBT, e olhe lá). Em termos de arte, a fotografia e a trilha sonora são os pontos altos, especialmente esta última, na minha opinião. Corais cantando em grego, música instrumental e o caramba, é uma coisa que não se vê em muitos lugares, e há uns anos atrás esse tipo de detalhe era completamente secundário em videogames. Hoje em dia, existem até festivais só de trilhas sonoras de jogos (e eu aceito convites pro VGL, obrigado).

Caminho das Grécias, com Kratos Dolabella (-q).

Estou falando sem chegar a lugar algum. Pois bem, vou fazer uma analogia aqui pra falar de outro jogo. Com HQs. Sabe aquelas histórias em quadrinho de super-herois, da Marvel e da DC? Então, são histórias que pertencem às editoras, que contratam os desenhistas, os roteiristas e o povo todo que vai trabalhar em cada edição. Pacotes fechados, carteira assinada, cada um na sua e beleza. Agora pega, por exemplo, Watchmen ou Sandman (sim, meu repertório de HQs também é pequeno). Essas últimas são histórias dos autores. Tem todo um time de trabalho, assim como as outras HQs, mas quem dita os rumos não é o editor-chefe, é primeiramente o autor, o cara que escreve e pensa em tudo do começo ao fim.

Não vou ser ingênuo e dizer que não tem pitacos do editor aqui e ali, porque é um trabalho, afinal. Mas acho que deu pra entender. E sim, eu estou falando da minha opinião aqui: produções autorais, por seu caráter independente, são sim, “mais arte” que produções unicamente editoriais, feitas em larga escala, etc. Me crucifiquem, eu sou mau (mentira) e descendente de alemães (verdade, mas os que fugiram da guerra, não os psicopatas xenófobos).

Assim como histórias em quadrinhos, existem poucos videogames autorais. Tanto que os únicos que me vêm à mente agora são IcoShadow of the Colossus, de Playstation 2. Muita gente não conhece, muitos dos que conhecem acham um pé no saco, mas quem aproveita o que esses jogos têm pra oferecer sabe que são experiências únicas. Tambores para a Frase de Efeito: assim como a Arte.

Não vou falar com detalhes dos dois jogos aqui porque o texto já está longo demais. Mas resumindo: em Ico, o jogador controla um menino, que nasceu com chifres e, graças à essa maldição, foi trancado em uma fortaleza pelos habitantes de uma vila. Na fortaleza, o menino, Ico, encontra-se com uma garota estranha chamada Yorda, que tem o poder de abrir portas mágicas, intransponíveis de outra maneira. A jogada: Yorda não atravessa a maioria dos lugares, e o jogador tem que ficar caçando maneiras dela poder atravessar, enquanto Ico se esgueira por tudo que é buraco. Ela é distraída, fica perdida no cenário, e é preciso chamá-la toda hora, ficar segurando pela mão, etc. Só tem os dois, no jogo todo. E a fortaleza. E uns monstrinhos que vivem querendo sequestrar a menina. Os cenários são gigantescos e não tem música. Nenhuma. Só se ouve o barulho do vento, do começo ao fim.

Que chifres grandes você tem!

O jogo tem um poder de imersão incrível. Ora ou outra eu me via xingando a Yorda, ou reclamando dela (“Vaca! Corre, sua derpa! Fiadamãe!”, etc). Porém, em um pedaço da história, Ico fica sem ela.

É aterrorizante. É horrível. Depois de horas escoltando a menina por aquele lugar gigante, a perspectiva de não saber o que está se passando com ela é assustadora. Em nenhum jogo eu senti tal nível de apego aos personagens. E olhe bem o que eu falei aqui: “eu senti”. Pode não acontecer com você.

Ico é um jogo original. Simples, sem música, longo e imersivo. Shadow of the Colossus é assim, também, e é do mesmo “autor”, Fumito Ueda (ainda que SoTC tenha algumas músicas, o que predomina é o silêncio). O que diferencia os dois de GoW? O fato de serem autorais. Não existem jogos sequer parecidos com as propostas que esses dois oferecem. God of War é legal, cheio de ação, músicas maravilhosas, um orçamento que poderia (mesmo) comprar uma cidade pequena (Areiópolis tá meio abandonada, alguém se interessa?), mas não tem absolutamente nada de novo. Só são muitos elementos bacanas, já vistos em outros lugares, que se juntaram ali. Isso faz dele um jogo ruim? De maneira alguma.

Só tem 16 desses no jogo. E você tem que acabar com eles. E com a mãe deles.

Só que, e isso que vou dizer também se refere à eterna guerra de consoles, hoje em dia se vê poucos jogos novos. Não que poucos jogos sejam lançados, mas poucas maneiras novas de jogar são criadas. O mesmíssimo acontece com a arte de hoje. E a mesma resistência por parte dos consumidores/espectadores acontece. Ainda temos telas, ainda temos esculturas, mas mostre uma videoarte ou uma instalação com várias mídias interativas para um reles mortal (oh!) e peça pra ele te explicar se aquilo é arte.

Aí vem a Nintendo com um console que faz os jogadores terem que ficar de pé (blasfêmia!), mover o corpo todo (heresia!) e não apresenta gráficos revolucionários de última geração (queimem o Miyamoto, ele transforma as pessoas em salamandras!). Algumas pessoas adoram e acham que é a vinda do messias, enquanto grande parte vira a cara e despreza, preferindo as mesmas coisas de sempre, apenas requentadas.

Gente, eu fiz relação de videogame com arte, tô ficando bom nisso.