Gombrich não morreu.

Só foi descoisificado.

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Canções da Maionese

Thomas Phillips. Retrato de William Blake. Óleo sobre tela, 92,1x72cm. 1807.

Eu fico caçando motivos pra escrever. Alguma coisa que me motive, senão o negócio não vai pra frente. Pensei em falar sobre algo atual, wow, legal, supermoderno etc, etc, mas não rolou. Tá certo que a exposição do barroco brasileiro lá é legal, eu pensei em falar sobre ela, mas nah. Por exemplo: o que me motivou a falar de MODELÂNDIA (vide o post anterior) foi a mais pura indignação.

Esse aqui foi motivado por música (tava ouvindo um álbum baseado no cara). Senhoras, senhores e bichinhos assexuados indecisos, falarei de William Blake. Eu não deveria, já que ele tá no meu TCC e isso foi traumático (brinks). Mas vamos lá.

O sr. Blake nasceu em 1757, em Londres (a que fica na Inglaterra, não as cinco dos EUA), e morreu lá também, em 1827. Como todo artista foda que nasceu antes do século XX, o coitado era praticamente  desconhecido em tudo quanto é lugar. O cara era extremamente religioso, na dele, vivia num mundinho fechado, tava cagando pra academia e achava que só o que ele fazia era o certo. Resultado: artista excepcional, mas considerado doido varrido por todos, exceto a mãe dele (espero). Tá, tinha alguns ali que achavam ele apenas um excêntrico inofensivo (arrã), e uns três, quatro, que realmente piravam junto, tipo “éee… sóoo… tu é o cara.” Mas eram poucos. Mesmo.

Esses poucos amigos do Blake eram que impediam-no de morrer de fome. Sério, ele vivia de fazer gravuras pros outros. No começo era foda. Se não vendesse, tava ferrado.

William Blake. O Ancião dos Dias. Água-forte com aquarela, 23,3x16,8cm. 1794.

Mas voltando à arte do cara: ele era pintor, poeta e tipógrafo. Além de superintrovertido. Ele desenhava e pintava de cabeça, fazendo as coisas como bem entendia, pouco se lixando se tava natural ou não. Era a visão dele que importava. Pintava as figuras pensando no significado delas, não se a sombra da cutícula do dedo de Deus tava certa (ok, ele tinha erros de anatomia bem feios, mesmo). Nesse aspecto ele parecia com os pintores medievais, que também faziam tudo como queriam, estivesse correto ou não.

Por que ele é tão importante assim? Porque foi o primeiro a trair a família Restart desde o Renascimento. O primeiro a dizer “ei, gente, péra, por que é que tem que fazer tudo assim? Faz cada um do seu jeito e fica todo mundo de boa!”. Óbvio que era esse um dos motivos pelos quais os artistas da época o achavam bizarro. Demorou praticamente um século pra ele ser reconhecido como uma das mais importantes pessoinhas da arte inglesa.

De toda a obra dele, duas foram as coisas que me obrigaram a escrever. Dois livros, escritos e ilustrados por ele. Canções da Inocência, de 1789, e Canções da Experiência, de 1793. Depois da publicação do segundo volume, os dois foram publicados num livro só, chamado Canções da Inocência e da Experiência Mostrando os Dois Estados Contrários da Alma Humana. Como num manuscrito da Idade Média, o Blake compôs os poemas, ilustrou cada um deles e os fundiu às ilustrações, as quais gravou e imprimiu.

Até a morte de Blake, foram vendidas vinte cópias de Canções da Experiência. Hoje em dia essa coisa cai nas provas do fim do ensino médio na Inglaterra. Não é demais?

A Imagem Divina, de Canções da Inocência.

Esses dois livros foram de suma importância para a história da ilustração. Blake era um artista do período romântico, sua arte era extremamente particular e ele ilustrava os próprios poemas que compunha. Poesia é um dos gêneros literários mais difíceis de serem ilustrados, dada a sua comum sucessão de metáforas, alegorias e demais frescuras. Já é uma abstração danada quando escrito, então tentar criar uma concepção visual pra coisa só pode, na maioria das vezes, dar em merda. Rui de Oliveira, ilustrador brasileiro, fala isso de um jeito mais bonitinho:

“Existem momentos, não apenas na poesia, mas na prosa também, em que a literatura alcança tal nível de beleza e abstração que qualquer imagem, por mais fantasiosa que seja, tornaria vulgar esse instante literário. Nem tudo pode ser ilustrado. Nem tudo possui um corpo físico.”

OLIVEIRA, I. (org). O que é qualidade em literatura infantil e juvenil – com a palavra o ilustrador. São Paulo: DCL, 2005.

Não havia livros parecidos com esses dois do Blake, e essa é a graça da coisa. Ele inovou a maneira como eram ilustrados, com imagens mescladas ao texto, não em páginas separadas com uma legendinha tosca. Óbvio que não foram as únicas ilustrações que ele fez na vida – em boa parte dela, passou ilustrando textos de outros autores. Ainda assim, suas imagens não eram simplesmente interpretações literais do que estava acontecendo nas cenas representadas: eram sua visão pessoal da obra, influenciada por todo o seu misticismo característico.

William Blake. Ilustração para a Divina Comédia, Inferno, Canto V.

Blake morreu enquanto trabalhava nas ilustrações da Divina Comédia, de Dante. Hoje em dia, ninguém sabe onde está exatamente o seu túmulo, apesar de existir uma lápide próxima do local onde ele deve ter sido enterrado, junto da esposa. A Igreja Gnóstica Católica reconhece Blake como um santo.

Sei não, eu também.

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