Gombrich não morreu.

Só foi descoisificado.

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Arte Clássica e a Genitália PP

Fídias (?) "Hermes Logios." Cópia romana em mármore a partir do original do século V a. C.

Tá certo que já faz quase um mês desde o último texto aqui, mas vamos continuar falando dos gregos (aqueles mocinhos alegres que criaram as bases da civilização ocidental, caso você seja um eremita).Na verdade esse era pra ter sido o primeiro post do GNM, mas acho que eu ainda não tinhas as bases corretas pra escrever. Agora acho que já é possível. Vou tentar responder à questão magnânima, crucial e terrível da arte grega, aquela que se tornou o padrão clássico do ideal de beleza do corpo humano, aquela que fez Michelangelo parir o Davi, aquela que alguns dizem que era colorida, aquela linda e maravilhosa coisa que causa olhares tortos pra saber se não é de verdade… e que fez todos os homens como pintos minúsculos.

Isso. Alguém precisa falar disso! Essa pergunta não pode ser um daqueles tabus inexplicáveis na quinta série.

Todo mundo já se perguntou. Por quê? Por que os pipizinhos de molequinho nos corpos de homenzarrões?

Elenquemos hipóteses:

  1. Os gregos tinham, de fato, uma involução fálica.
  2. Os gregos preferiam coisas em tamanhos que não os machucassem. E tinham vergonhinha~
  3. Em contraposição à hipótese 1: os gregos eram modestos e não queriam ofuscar seus vizinhos europeus.
  4. Gregos consideravam coisas pequenas mais humanas, e maiores mais monstruosas.
  5. Nanomáquinas.

Pra dar uma escrutinada sobre o assunto eu vou usar Arte e Ilusão, do Gombrich (♥) e uns trechinhos de Greek Homosexuality, de Kenneth Dover, que achei perdidos por aqui. Vamos à análise.

I. Involução fálica

Bem, falar que os gregos tinham pinto pequeno seria falho. Eu acho. Se fossem japoneses dava pra falar com certeza. Podemos consultar a Wikipédia e procurar a média peniana mundial e a média dos gregos, pra ver se isso justificaria os pipis das estátuas. Mas não vamos fazer isso.

II. Frescura

Sabemos da preferência sexual dos gregos.

Tá, não sabemos, mas sabemos da fama. Eles basicamente eram capazes de ficar excitados com qualquer coisa que fizesse sombra e fosse capaz de gemer (ainda que essa segunda característica não fosse essencial, mas sabe como é, teria mais graça). Gente, é só pôr no papel os casos de Zeus. O deus-supremo helênico teve filhos com mulheres, árvores, pedras, consigo mesmo (masturbação não causa gravidez, não se preocupe), com animais, com conceitos da natureza, etc, etc. Veneravam um ninfomaníaco, é óbvio que eles não ligavam pra tamanho ou formato das coisas.

Pintor desconhecido. Ganímedes fazendo uma libação a Zeus. c. 490 a.C.

Adorar um ninfomaníaco não era nada. Ao contrário de hoje em dia, na nossa sociedade judaico-cristã-obâmica-ocidental, os gregos ADORAVAM o corpo. Não que hoje não adoremos, mas é que eles não tinham pudores em mostrar seus atributos; não era um tabu pecaminoso ou coisa do tipo. Era mais pra “é bonito, mostre”. E tenha orgulho disso. Olimpíadas eram disputadas com todo mundo peladão. Usar roupas em eventos esportivos era considerado bárbaro (eles diriam out): ter vergonha do corpo era falta de civilidade. O que faz um sentido terrível, não?

III. Modéstia

Não.

IV. Que pênis grande você tem!

Oh, aqui encontramos mais um pouquinho de sentido. O pequeno e o grande, o natural e o monstruoso. Sim, isso era verdade. Haviam, sim, representações artísticas que envolviam pênis grandes, enormes, monstruosamente assustadores. Tinha até um deus do pinto, Príapo.

Anônimo. Príapo-Hermes, ou Príapo com Caduceu. Afresco em Pompeia, c. 89 a.C. - 79 d.C.

A diferença aqui era estética e simbólica: pipis pequenos eram reservados para a representação de homens comuns, enquanto os grandes (mesmo que visualmente “normais”) eram utilizados em seres selvagens, como sátiros ou animais.

V. Nanomáquinas

Na verdade não tem absolutamente nada a ver com isso aqui, mas é que seria divertido se tivesse.

Resumindo:

Tudo uma questão de ideal de beleza. Do mesmo modo que as estátuas eram representadas praticamente sem pêlos, por exemplo. Lembra do schemata, do post anterior? Ainda que os gregos tivessem superado a pressão do uso dos esquemas tradicionais, resquícios sempre existem. Pipizinhos eram um desses resquícios (sem trocadilho), do mesmo modo que praticamente todos os rostos eram iguais, todas as mãos, todos os cabelos e todos os padrões de vestimenta, a menos que estivessem deliberadamente representando algo único. Esquemas. Só que estamos tão condicionados pela nossa visão de sexualidade proibida, que a primeira coisa que percebemos é… o pinto. As outras coisas, tão estranhas quanto, desaparecem.

Hagesandro, Athenedoro e Polidoro. Laocoonte e seus filhos. Cópia em mármore a partir de um original de 200 a. C.

Na cabeça dos gregos, um pipi pequeno, lisinho e não circuncidado era mais olhável que uma coisa grossa, feiosa e grande. Esses eles deixavam pra velhos tarados e bichos. Além do mais, pênis grandes eram um símbolo de fertilidade, e esse era mais um dos motivos pelos quais eles não eram representados dessa maneira; as estátuas e pinturas, sendo a maioria delas simbólica, não eram de deuses da fertilidade, e sim de homens mortais. Colocar uma coisa ali que aparecesse demais iria mudar o significado todo da coisa.

Para finalizar, isso não aconteceu só com os gregos. Coisas fálicas mais coisudas são associadas à pura sexualidade, fertilidade ou selvageria em outras culturas. Especialmente na “nossa”. Por exemplo, numa passagem de Ezequiel, 23: 20, temos o relato bizarro sobre a profissional do sexo Ooliba, que ardia em amor “por luxuriosos, cujo membro era como um membro de asno, e sua lubricidade igual à dos cavalos.” (citar a Bíblia significa que eu estou certo).

Como a arte grega foi a base da pintura e da escultura até o Renascimento, é claro que por muito tempo os homens foram representados com um membrinho. A partir da quebra dos cânones da arte renascentista, ali depois do século XVII, tudo se normalizou, e temos pintos normais.

Mas não temos mais tantos nus masculinos. Não é um padrão interessante?

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Schemata de matar e a fodelança grega

Issan Ichinei. Daruma (Bodhidharma). Pintura do Período Kamakura (século XIV).

Um trocadilho de morrer (tá, parei).Schemata é um jargão legal em psicologia para falar de esquemas de representação e interpretação visual. Toda civilização partiu de schemata para ver o mundo. Em arte, isso significa que cada civilização “via” imagens de uma maneira diferente. Pense nas pinturas egípcias, ou nas japonesas. É bater o olho pra saber que são de tal e tal povo. Estou resumindo o conceito ao extremo, mas é basicamente isso; não é dele exatamente que eu vou falar aqui, e sim do boom maravilhoso que foi a derrapada dos gregos na história da arte.

Estava eu aqui estudando quando simplesmente fui acometido por uma obrigação de dividir isso. Amigues, vejam que bonito:

[…] a juventude de um Estado deveria praticar apenas aquelas canções e poses consideradas boas: essas eram prescritas minuciosamente, e as prescrições eram afixadas nos templos. Fora dessa lista oficial era, e ainda é, proibido a artistas e pintores e a todos os outros que produzem poses e representações a introduzir nelas qualquer inovação ou invenção, seja nas ditas produções, seja em qualquer ramo da música, que extrapole as fórmulas tradicionais. E no Egito encontramos coisas pintadas há dez mil anos (e não digo levianamente, mas literalmente: há dez mil anos) que não são em nada melhores nem piores que qualquer obra dos nossos dias, mas elaboradas com a mesma arte… (PLATÃO apud GOMBRICH, Arte e ilusão, p.105-106)

Isso aí foi Platão falando da arte egípcia, na sua obra bico-do-corvo/inacabada As Leis. Sim, ele pagava pau pros egípcios, por causa de toda aquela viagem dele do mundo das ideias e tralala. Pra quem não lembra, pra ele havia toda uma coisa de ~mundo das ideias~ e ~mundo material~. Ideias feitas, formadas, perfeitas, contra aparências toscas que nossos pobres olhos são obrigados a ver, pois não são capazes de alcançar um estado de espírito májicko o suficiente para abraçá-las. Para Platão, um artista apenas imitava uma ideia, enquanto um artesão a realizava de fato, trazia o conceito ao mundo da matéria.

Por isso ele pagava pau pros egípcios. Eles eram especialistas em não mudar porcaria nenhuma.

Pintura no túmulo da Rainha Nefertari. 1298 a. C.

Como bom ranzinza que devia ser, Platão achava um absurdo aquelas inovações de pintura e escultura dos seus contemporâneos gregos. Devia andar pela ágora, tirando carrapato da toga resmungando “no meu tempo…” enquanto desviava de cavalos gigantes de madeira (oi?).

Mas afinal, o que diabos tornou os gregos tão importantes na arte?

A quebra do schemata.

Até então, no mundo, no Brasil e em todo o universo, toda representação visual era baseada em schematas criados há eras. Os pintores de tudo quanto é canto não eram nem um pouco naturalistas: seu processo de criação de imagens não baseava-se na observação das formas que eles viam na realidade, mas sim na imitação de esquemas. Fórmulas, mesmo. A arte egípcia é o exemplo mais clássico e fofo e amado que temos (s2), mas é só ver a arte do Oriente que dá na mesma. Pode-se dividir o “estilo” por civilização, mas não por artista. O uso do esquema era generalizado.

Esse foi o pulo do gato dos gregos. Eles foram os primeiros a se tocar e dizer “ei pessoal, e se a gente fizer a cabeça dessejeito?”. São eles os responsáveis pelas primeiras correções no quesito Imitação da Realidade. Não foi um processo natural de evolução. Eles foram a única civilização com semancol, mesmo. Dá pra ver isso muito bem em algumas esculturas, num período de menos de 300 anos. Digam oi aos rapazes:

1. Apolo de Tenea. Século VI a. C. Mármore de Paros 2. Apolo de Piombino. Século V a. C. Bronze. 3. O menino de Creta. Século V a. C. Mármore de Paros.

Essas três esculturas são formas clássicas chamadas kouros, representações de rapazes jovens e bonitos (ui). Dá pra ver uma “evolução” aí, da primeira pra terceira. A rigidez dá lugar, aos poucos, à vivacidade, com pouquíssimas alterações na estrutura. O Apolo de Piombino só tem os braços levantados e a perna levemente mais adiante; o menino de Creta apresenta uma ligeira torção no tronco, dando movimento à estátua.  E isso aí estava muito, mas muito perto disso aqui:

Praxíteles. Hermes e Dioniso. Mármore de Paros, 2,10m. 343 a.C.

O que uma empinadinha não faz, né?

Além da quebra gradual do schemata e da mitologia pansexual-incestuosa, foram eles os primeiros a deslocar as imagens de sua função primeira, a ponto de sair copiando várias delas em muitos lugares apenas porque… eram bonitas. Antes disso, todas elas tinham uma função específica, fosse retratar um feito de guerra, ilustrar uma cena religiosa ou coisa do tipo.

Sim, pessoal. É isso mesmo, se vocês chegaram à mesma conclusão do tio Gombrich. Foram os gregos que inventaram a arte como a conhecemos hoje. Aquelas monas que andavam de toga e corriam peladas. E acabou que todo o pensamento ocidental é baseado nelas.

Por isso, criançada, lembrem-se de agradecer a Zeus todos os dias por não terem sido os japoneses a quebrarem o schemata.

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