Gombrich não morreu.

Só foi descoisificado.

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Arte primitiva: 40 mil anos de ócio

É claro que não há como saber com certeza pra que diabo servia a arte daquela época. 40 mil anos no passado estão temporalmente bem longe de fotografias, livros, documentários e – graças aos céus – um fundo de cromaqui com o Sérgio Chapelin. Só nos resta, então, ir atrás de povos primitivos que ainda existem nos dias de hoje e, a partir deles, tentar formular mais ou menos como os ~homens das cavernas~ viviam. A definição de “primitivo” aqui não é a de que esses povos sejam mais simples ou piores do que a “civilização”, mas sim a de que os mesmos são mais próximos de um modo de vida semelhante ao dos primeiros humanos.

J-A-M-A-I-S faria isso. (Ok, exemplo ruim. Mas experimente ir a uma igreja e rabiscar a cara de Jesus).

Imagine a nossa cultura judaico-cristã-rebecca-bláckica-ocidental atual. Não recortamos uma fotografia de um de nossos ídolos de uma página de revista para, em seguida, furar seus olhos, fazer sardas, chifrinhos, bigodes e o diabo a quatro (exceto santinhos de vereadores, esses são liberados, gente). Procuramos não desenhar ou escrever sobre um retrato de alguém próximo a nós, porque algo lá dentro da nossa cabeça diz que, ao fazer isso, estamos de certo modo machucando a imagem interna que temos da pessoa. Que se chame de alma ou de impressão, parece que estamos danificando também o retratado, não apenas a sua representação.

Isso acontece nos dias de hoje, quando somos bombardeados por imagens de todo o tipo, vindas de todo lugar. Podemos copiar e reproduzi-las quase infinitamente e, ainda assim, temos esse vulto de vida por trás de cada uma delas. Há 40 mil anos, quando qualquer imagem era uma coisa única, praticamente irreproduzível, o valor da vida de cada uma delas era talvez 40 mil vezes mais forte que o que temos atualmente.

As imagens não eram simples representações das coisas. Elas eram, de certo modo, uma parte das coisas. A arte primitiva buscava incorporar essa vida existente no mundo, capturá-la, tomá-la entre os dedos.

Milênios antes da invenção da tesoura e da gilete.

Não há como falar bem do modo de vida nômade, tendo a gente vivido desde o nascimento no mais puro sedentarismo (alguns mais que os outros, como é o meu caso). Os povos primitivos, quando eram bem, er, primitivos, viviam da caça e da coleta de frutas e vegetais. Algo em que eu nunca havia parado pra pensar, no entanto, foi esclarecido há algumas semanas pelo Caio, nosso querido biólogo/paleontólogo/fã-do-Batman/noivo-da-Leila: esse povo vivia de pegar fruta e caçar. As mulheres pegavam umas frutinhas aqui e ali, dia sim, dia não, os homens só se davam ao trabalho de ir caçar em dia de jogo do Curíntia, e toda a carne durava semanas, dividida por todo o grupo.

Ou seja, eles tinham muito, mas MUITO tempo livre, excetuando-se aí os momentos em que tinham que fugir de algum tiranossauro faminto (perdão, Caio). Eles devem, sim, ter desenvolvido ferramentas e técnicas incríveis com todo esse tempo livre, mas tinham um problema de ordem tecnológica: ainda não haviam aprendido a fundição, e o Wal-Mart ainda não existia, logo, se viravam com o que tinham à mão: pedras, ossos, chifres, terra, sangue, madeira, tudo muito old school.

Vênus de Willendorff. 11cm de altura, 24 mil anos. Poucos resistem aos seus ~encantos femininos~.

Já parou pra pensar que doido é caçar sua própria comida, e depois usar os restos dela pra fazer ferramentas? Eles eram muito à frente do seu tempo, com todo esse papo de sustentabilidade que enche o saco hoje em dia. Dos mamutes, elefantes e derivados, usavam as presas de marfim para esculturas delicadas, e até mesmo fabricavam flautas e instrumentos de sopro rudimentares usando ossos ocos de aves. Sem falar nos clássicos tacapes feitos de osso de tiranossauro. Estamos nos focando nos objetos ~artísticos~ aqui, mas é claro que mais do que estes, o pessoal daquela época criava diversas ferramentas para uso no dia-a-dia: prendedores de cabelo, lâminas, pontas de lança, amoladores para as armas, controles remotos, etc.

É importante lembrar que, mesmo que aqui tenhamos separado os objetos “artísticos” dos outros, os homens daquela época não tinham essa distinção. Toda e qualquer produção de sua parte era realizada com o intuito de cumprir uma função específica. Estatuetas eram objetos rituais para atrair coisas específicas, assim como facas serviam para cortar carne. Tudo era objeto. Nada era feito por simples prazer estético ou apreciação.

Muitos dos trabalhos em escultura, supõe-se, eram semelhantes aos talismãs e patuás dos dias de hoje, servindo como representações daquilo que seria bom carregar consigo. Incluem-se aí pequenas estátuas de animais e de figuras humanas, gravadas em alto-relevo sobre presas de marfim ou então esculpidas em pedra. Esses objetos eram pequenos, normalmente do tamanho máximo que o material permitia sozinho, sem emendas ou prolongamentos artificiais. Eu imagino que, por esse povo todo andar a pé, também devia ser difícil andar por aí carregando uma estátua humana em tamanho natural, o que os forçava a manter tudo no formato de bolso (mesmo que eles não tivessem bolsos).

A menos conhecida Venom de Willendorff.

Dessas esculturas, um tipo muito específico pode ser destacado: as figuras femininas. Essas, chamadas de vênus em homenagem a – não diga! – Vênus, deusa romana da fertilidade, do amor, da beleza e do meretrício¹, representavam a quintessência da mulher: peito e bunda. Ok, do ponto de vista mágico e incrível que as coisas eram pra esse povo. Eles provavelmente não tinham muita noção de que o homem tinha uma parte importante na reprodução, então as mulheres deviam ser vistas como criaturas meio mágicas e bizarras, que às vezes ficavam inchadas e expeliam um novo caçadorzinho pro grupo (o que era excelente). Seguindo o princípio de que eles criavam essas imagens do que queriam ter, nada mais lógico do que esculpir mulheres grávidas, com o quadril largo e os peitos inchados da amamentação.

A mais famosa das vênus (veni? vênuses?) com certeza é a Vênus de Willendorff, aquela bolotinha fofa que todo mundo acha que é gigantesca, mas que na verdade tem pouco mais que dez centímetros. Aquela senhorinha tem 24 mil anos de idade, e é uma mocinha perto da mais antiga figura humana conhecida, a Vênus de Hohle Fels (também chamada de Vênus de Schelklingen), com seus respeitáveis 40 mil anos. Cabe aqui a nota de que os nomes das vênus vêm do lugar no qual elas são encontradas. Logo, se fosse encontrada uma aqui em Areiópolis, provavelmente seria chamada de Vênus de PQP.

Vênus de Hohle Fels. 6cm de altura, 40 mil anos de idade. Sim, parece um frango assado.

Mas chega de escultura e vamos falar das pinturas incríveis. “Ah, mas eles nem sabiam desenhar, faziam rabiscos igual desenho de criança.”

Exceto que não. Pinturas contemporâneas às esculturas que acabamos de ver ali eram muito bem desenvolvidas sim, senhor. Com direito a degradês, luz e sombra, e até mesmo a acompanhar o relevo das paredes para reforçar o efeito do volume dos corpos. Cadê seu Da Vinci agora?

A questão é que há o péssimo hábito de pensar que o ~homem primitivo~ é menos desenvolvido que o ~homem civilizado~. O último passa o dia no twitter, o primeiro passava o dia se empanturrando e engravidando a tribo inteira (e eram todos magrinhos atléticos). A verdade é que, em 40 mil anos, o cérebro e o sistema cognitivo humanos não mudaram praticamente nada. Esse período de tempo, incomensurável pras nossas vidinhas de 70 anos, não é mais que um pum pra evolução dos seres vivos. Então sim, o tiozinho de milhares de anos atrás tem exatamente a mesma capacidade que um tiozinho de hoje, o que mudou mesmo foram apenas os sistemas culturais que se tornaram cada vez mais um amontoado de informações que eu não sei se são tão úteis assim. Enfim.

Bisão na caverna de Altamira, Espanha. Cerca de 25 mil anos. É interessante notar que não era pintado e pronto. Várias gerações posteriores continuavam restaurando as imagens, reforçando e adicionando elementos.

Fato é que eles tinham, sim, técnicas incríveis para a pintura mural, e até mesmo sistemas abstratos de símbolos em torno de suas composições. Desenhavam, assim como esculpiam, coisas que queriam no próximo Natal: bisões, cavalos, plantações e tudo o que há de bom. Eram representações figurativas que não perdem em nada para obras de muita gente de hoje em dia (especialmente de hoje em dia). Das abstrações que mencionei, muitas poderiam significar lanças, ferimentos e movimentos feitos pelo ser retratado. Não raro desenhavam os animais cercados pela tribo, esperando que a cena se materializasse na real life.

"E é assim que se faz um sfumatto nessa perspectiva central, Ugubbu."

O que reforça a crença de que essas pinturas eram signos mágicos era a sua própria feitura: não eram produzidas em lugares abertos, lá nos paredões pra todo mundo ver. Não eram mainstream. Os artistas-feiticeiros não gostavam do grande público, e se enfiavam nos mais profundos buracos das cavernas pra poder pintar suas obras em locais inacessíveis – guardando suas imagens muito bem guardadas, para que de lá não escapassem, exatamente o que queriam que acontecesse nas suas caçadas. Capturando a imagem e prendendo-a no fundo de uma caverna, levariam com ela sua parte viva, drenariam sua energia e conseguiriam sua caça.

Fora a parte ~mística~ de tudo isso, né? Se enfiar sozinho num buraco, levando consigo uma tocha e seus materiais de pintura – extrato de tudo quanto é planta para obter cores diversas, terra, barro, água e, principalmente, ~sangue~, não era pra poucos.

Numa conclusão rápida para pseudoaula de história, ficamos por aqui. A função da arte do paleolítico era não ser exatamente arte, como conhecemos hoje, mas era apenas a construção de imagens que, de maneira ritualizada, serviria para algum propósito específico, o de capturar a essência de algo desejado.

Fosse esse algo desejado uma caçada ou mais filhos para ter uma tribo maior, o importante é que as imagens trariam um pedaço daquilo com elas e, por mais que esse pensamento pareça simplório e ultrapassado, ainda o mantemos com nossas imagens de santos, figas, tatuagens e álbuns do orkut. Seja para manter sempre viva uma memória por meio de uma imagem, seja para que momentos e eventos sejam atraídos ou se repitam. A única diferença é que hoje as imagens existem numa quantidade tão grande que paramos de nos impressionar com elas – até encontrarmos aquelas únicas, diferentes, originais, que chamam a nossa atenção e que nos fazem pensar em alguma coisa nova. A essas damos o nome de arte.

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